sábado, 28 de dezembro de 2013

A Cheia de 1962

Foto Baía

"Quando me solicitaram que escrevesse sobre os Bombeiros Voluntários do Peso da Régua e a sua ação aquando das cheias, rapidamente me ocorreu as inúmeras vezes em que, em conferências ou palestras, ao ser abordado o tema das cheias, surgia como diapositivo da apresentação, uma imagem dessa localidade, com as marcas assinaladas em prédios referentes às cheias de 1909 e 1962. A minha memória retém, também, imagens de visita à região por alturas das cheias de 2001.
Naquelas apresentações seguiam-se os conceitos - a distinção de cheia e de inundação, caudal, bacia hidrográfica, período de retorno, tempo de concentração, pico de cheia -, ou a influência da forma dos vales e da dimensão das bacias nas cheias. E, também, as práticas e técnicas culturais agrícolas e florestais adequadas ao aumento do tempo de concentração e as infraestruturas mais utilizadas na regularização do caudal do rio.
Numa pausa, transporto-me, pela memória, no tempo e no espaço, para a região do Douro, que tenho tido a oportunidade de conhecer. Sinto a força e intensidade do rio, das fragas e das gentes que tenazmente, com as suas mãos, moldaram uma paisagem de beleza ímpar e justamente classificada pela UNESCO como Património Mundial.
Trabalho duro, com progressos e retrocessos, em que se evidencia sabedoria. Periodicamente assolada pelas cheias, além da força para se construir e reconstruir, sobressai a humildade de se terem reconhecido os naturais erros, de os corrigir, tendo-se criado, progressivamente, uma estrutura mais resiliente e preparada para a adversidade.
Mas, assim como a natureza nos dá essa notável capacidade de evoluir errando (se o mecanismo da dor não existisse, não seríamos hoje o que somos), também faz com que o tempo traga o esquecimento. Hoje, muitos jovens, nunca vivenciaram o tipo de cheias a que os seus pais, avós e a memória do povo aludem, não tendo, por isso, interiorizado, pela experiência, as atitudes e comportamentos para fazer face à adversidade.
Regresso à conferência onde se vão abordar programas informáticos de monitorização do caudal, sistemas de aviso e alerta, a cooperação entre as entidades portuguesas e também espanholas, através de acordos bilaterais, para a gestão dos rios internacionais. Se tudo funcionasse bem, aparentemente, não se repetiriam os efeitos de uma qualquer grande cheia. De fato, há uns anos que não se verificam situações semelhantes àquelas que propiciaram as imagens a que inicialmente me referi.
Com a tranquilidade possível que as soluções tecnológicas nos transmitem, sei que, com períodos de retorno possivelmente maiores, é muito provável que ocorram novas grandes cheias no Douro.
Para essas circunstâncias, é necessário que os cidadãos de Peso da Régua e da região duriense ribeirinha estejam preparados, com comportamentos e atitudes adequadas, quer face à ocorrência, quer à sua prevenção.
Se bem que essa preparação possa ser efetuada por muitas instituições, desde a escola à universidade, passando pela comunicação social e outras, é indiscutível a relevância que os bombeiros poderão ter na mesma, para além da sua inestimável capacidade e prontidão nessas emergências."


Major-General  Arnaldo Cruz
Ex-Presidente da Autoridade Nacional da Protecção Civil

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