segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Festas do Socorro

Foto: Arquivo de josé alfredo almeida



 Este ano, 1966, foi ano de festas. Isto quer dizer que foi ano de barulho ensurdecedor. Belo fogo de artifício, boas bandas de música, procissão regular… Mas, o predomínio do altifalante sobre todos os números do programa? Fez fugir almas sensíveis, fez-lhes tapar os ouvidos.

Com o advento da sonorização mecânica, abusiva em mão de maus mecânicos, foram-se os tempos áureos das festas do Socorro. Nesses belos tempos, não havia zanguizarra que incomodasse, na execução de belos repertórios, famosas bandas de música. O arraial do rio, hoje deserto, porque o forasteiro, adepto do piqué, fica a ouvi-lo na alameda situada atrás da Câmara, foi, nesses tempos, um festival deslumbrante. Aquém e além-Douro, duas multidões irmanadas no prazer comum do Fogo e da Música… Rio abaixo e rio acima, barcos iluminados e embandeirados… A bordo, gente alegre, que misturava com as risadas corações de melancia, arroz de forno e anho assado. Hoje, à luz dos foguetes, o areal de além-Douro é um pequeno Sara. Do lado de cá, no antigo Passeio Alegre, hoje Avenida de João Franco, há farrapos de multidão aborrecida.
Fizeram falta às festas do Socorro as antigas touradas, cumpridas à portuguesa, sem estilizações que pudessem indignar os entendidos. E a parada agrícola? Todos os anos se realizava uma exposição de tudo quanto produz o solo duriense. Vinhos, frutas e flores… Porque deixou de haver parada agrícola? Era certame de valor real e espiritual. Juntavam-se aos renovos, como enfeite, rendas e bordados. Compareciam linhos e damascos. Ressuscitavam alfaias para luzir uma hora.
As festas do Socorro degeneraram. São hoje uma embriaguês de ruídos, devida ao culto do altifalante. Se o microfone, bem regulado, fosse privativo da autoridade para uma urgência, é provável que as festas do Socorro tornassem a ser harmoniosas.



João de Araújo Correia in Horas Mortas

Nas fotografias onde se vê a minha alma

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"Caro Dino,
No outro dia disseste que nas fotografias se vê a minha alma: e agora aqui as tens. Porque o único irmão da minha alma és tu e todas as coisas que me têm sido mais caras quero deixar-tas em herança, agora que a minha alma se encaminha por uma estrada onde é preciso que se embacie, se mascare, se ampute. Aqui encontrarás tantas coisas que já conheces: detrás de cada uma escrevi um título ou palavras com pouco sentido, que no entanto compreenderás. Conserva-as para recordação minha, para recordação do nosso encontro, que tem sido bom e belo e me deu tanta alegria no meio da dor. Caro, caro Dino, que tu ao menos possas moldar a tua vida como eu sonhava que fosse a minha: toda nutrida de dentro e sem escravidão. Em cada uma destas imagens vês repetido este desejo, esta certeza.
Abraço-te.

Antonia."


Antonia Pozzi in  Morte de Uma Estação

Eternamente Douro-119

Foto:josé alfredo almeida

Barco na paisagem-338

Foto:josé alfredo almeida

Pontes da Régua-1086

Foto:josé açfredo almeida

sábado, 5 de agosto de 2017

Eternamente Douro-116

Foto: josé alfredo almeida

Pontes da Régua-1084

Foto:josé alfredo almeida

Mar ausente



o vento batendo portas e janelas
ao longo deste corredor feito de palavras
e como se isso fosse pouco 
eu 
e a tua ausência. 


 Artur do Cruzeiro Seixas        

Postal de verão-54

Foto: josé alfredo almeida



Concentro os olhos no mais precário
lugar do teu corpo: morre-se 
em Agosto com as aves: 
de solidão. 

Neste instante sou imortal: 
tenho os teus braços em redor
do corpo todo: 
as areias escaldam: é meio-dia. 

Do teu peito avista-se o mar
caindo a prumo:
morre-se em Agosto na tua boca: 
com as aves



 Eugénio de Andrade        

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Eternamente Douro-114

Foto:josé alfredo almeida

Eternamente Douro-113

Foto:josé alfredo almeida

Ilha de Xisto - Guia do Douro e do Vinho do Porto




ILHA DE XISTO
Guia do Douro e do Vinho do Porto

Autor: Manuel Carvalho
Editora: Pedra da Lua/novembro de 2006




           
"Foi há 250 anos. Poderia ter sido um alvará como os outros, mais um documento administrativo condenado a caducar com o tempo ou esvaziado pela evolução dos costumes. Mas não. O alvará que Pombal assinou para criar a célebre Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro teve o condão de durar, as suas prescrições criaram raízes, fez história. Nesse sentido, no dia 10 de Setembro de 1756, nasceu a primeira denominação de origem controlada do mundo, conceito que só muitas décadas mais tarde se aplicaria em França, na Espanha ou na Itália. E dessa confluência entre um território demarcado e um severo código de procedimentos administrativos e culturais nasceria também o Douro das vinhas e do vinho do Porto que tivemos o privilégio de herdar. Conhecer o Douro sem identificar este fio condutor da história seria, pois, um propósito sem sentido. A imponência dos seus socalcos, a traça do velho burgo duriense -ambos inscritos na lista do Património Mundial da UNESCO -, a apaziguadora obscuridade das caves ou a elegância de um grande porto só são inteligíveis se enquadrados neste processo de construção.
(...)
Quem ousar fazer um roteiro mundial que exclua o óbvio e se concentre nas excepções ou culturais do planeta tem dever o incluir o Douro e o universo do vinho do Porto nos seus planos."


Manuel Carvalho

Arte urbana-39

Foto:josé alfredo almeida

Miúdo espantado

Foto: sombras de alguém


e ficas de novo sozinho
na solidão que começa


Manuel António Pina




Não pretendo ter graça, não pretendo ser profundo, não pretendo impressionar ninguém: recuperei a infância sou um miúdo espantado.



António Lobo Antunes

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Espelho




"Espelho, quis conhecer-te e perdi-me de ti."



José Luis Peixoto



Somos ficção
Simulamos o invisível
e a imagem

no reflexo
do espelho — ali nada há
como nada somos

Onde encontrar
a verdade
ou a real essência

desses fantoches
de nós mesmos
se os mistérios

não estão em lugar
mas no que mais fundo
escondemos?
.


Alberto Bresciani

Eternamente Douro-112

Foto: josé alfredo almeida

Pontes da Régua-1082

Foto:josé alfredo almeida

Barco na paisagem-335

Foto:josé alfredo almeida 

Já não sei

Foto: sombras de alguém


Já nao sei
onde começa e acaba
a tua face
já não sei
onde são dedos
ou gestos
as minhas mãos.




António Reis

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Eternamente Douro-109

Foo:josé alfredo almeida

Pontes da Régua-1080

Foto:josé alfredo almeida

Barco na paisagem-333

Foto: josé alfredo almeida

Fastos






O Verão cantava sobre a sua rocha preferida
quando tu me apareceste,

o Verão cantava afastado de nós
que éramos silêncio,
simpatia, liberdade triste,
mar
mais ainda do que o mar,
cuja enorme comporta azul
brincava aos nossos pés.

O Verão cantava
e o teu coração nadava longe dele.
Eu beijava a tua coragem,
entendia a tua perturbação.

Estrada através do absoluto das vagas
em direcção a esses altos picos de escuma
onde navegam virtudes assassinas
para as mãos que seguram as nossas casas.

Não éramos crédulos.
Éramos rodeados.

Os anos passaram.
As tempestades morreram.
O mundo partiu.

Sofria
por sentir que era o teu coração que já não me conhecia.

Eu amava-te.
Na minha ausência de rosto e no meu vazio de felicidade.

Eu amava-te, mudando em tudo,
fiel a ti.


René Char

domingo, 30 de julho de 2017

Só o teu nome




O amor.
Pode ser um delírio, uma vertigem, uma palavra apenas.
Uma promessa por cumprir.

Do passado, no fundo de uma gaveta esta foto tirada por ti.

Eu já não sei se sonhei essa manhã, se inventei as suas cores...
O teu nome, só o teu nome me parece real nos meus lábios.


Como se fosse um castigo.


Ana de Melo