segunda-feira, 31 de março de 2014

Geografia sentimental

Foto: josé alfredo almeida

 Pertenço a esta
 geografia, ao lume branco
 da resina, ao gume
 do arado. A minha casa
 é esta: um leito
 de estevas e uma rosa
 de caruma abrindo
 no tecto do orvalho.

 Albano Martins

Tempo das cerejas

Foto: josé alfredo almeida


Acordar – ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira,
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira

Abrir os  braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, o que quer que seja,
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

Eugénio de Andrade

Caminhar pelo rio



(Re)Conhecer-42



Das primeiras do país





      134 anos a servir a população do concelho do Peso da Régua 
       -  Uma instituição que sabe  pensar  o passado e interrogar o futuro.

domingo, 30 de março de 2014

Nascida em 1885



Foto: Miguel Guedes


“Pena é que o saudoso historiador da nossa vila e concelho não tenha nomeado o sócio contribuinte, que tanto desejou ver o nosso quartel espiritualizado com uma livraria. Dizemos tanto desejou, porque o seu desejo moveu a vontade do Dr. Joaquim Correia Cardoso Monteiro.
Devemos a um anónimo a fundação, em 1885, da nossa Biblioteca. Se soubéssemos o nome dele, seria obrigação perpetuar-lhe a memória com algum voto condigno. Como não se sabe, imagine-se que foi o humilde benemérito. Algum obscuro artista, amigo da Instrução…
Obscuro não deve ter sido o Dr. Joaquim Correia Cardoso Monteiro, propulsor da luminosa ideia do sócio contribuinte. Inscreva-se-lhe o nome numa lápide se não pudermos eternizar-lhe o retrato entre os nossos livros. Devemos gratidão a esse antepassado.
As coisas são como os rios. Têm origem que, embora tímida, nunca é desprezível. A nossa Biblioteca nasceu em 1885. Ninguém esqueça essa data.
Nascida em 1885, só em 1960, em pleno século actual, veio a ser baptizada. Na província, a marcha de qualquer intuição é sempre lenta.”


João de Araújo Correia

Para além do cais

Foto: josé alfredo almeida

(Da)Imortalidade



 

   Há dois tipos de pessoas no mundo:
   as que acreditam que Pessoa morreu
   e as que o leram ainda no outro dia.

   Afonso Cruz

sexta-feira, 28 de março de 2014

O meu Moledo -32


Onde o nosso olhar toca

Foto: josé alfredo almeida

É uma parede que já não tem dentro,
Esta sobra obstinada que enfrenta os arrufos do vento,
Os arranhões da chuva
E o peso do calor
Na mesma posição em que nasceu.

As rajadas do tempo arrancaram-lhe a pele,
Descobriram o segredo dos ossos toscos e irregulares
À volta da moldura do vazio,
Quadro que veste a sua nudez
Com um retalho da paisagem
Onde o nosso olhar toca.

Ana Ribeiro

(Re)Conhecer a Régua-41



Novas Vidas


Foto: Vítor Santos

Na tarde calma, ondula
A invisível ramagem dum poema.
Uma secreta brisa,
Que apenas se advinha,
Percorre o mundo íntimo das coisas
E acorda em sobressalto
As folhas do silêncio.
Falta ainda o poeta...

Miguel Torga

O DOURO - um lado romântico


quinta-feira, 27 de março de 2014

Felicidade é...



    Aquele casario branco
    emoldurado por socalcos
    verdes, tingidos de bronze,
    e dourados
    olha-se ao espelho,
    um rio calmo,
    enquanto o sol acaricia.

   Uma garça
   emite o seu grito.
   Um peixe
   salta nas águas.
   Uma rapariga
   sonha.
   Alguém chama:
   Manel! Ei Manel!

   Há vida no Douro.

   Mário Mendes

Um rio azul


Foto: Vítor  Santos

Um rio azul
uma vale paradisíaco

Sagrado altar

Mário Mendes

Teatro


Foto: josé alfredo almeida



«Sonhavas comigo, Comendador? Sabes? Agora mesmo me acaba de ocorrer que o facto de não ter conseguido seduzir a doce Zerlina foi talvez o que me salvou de cair há bocado no inferno… Que te parece? Imagina que há lá uma balança que vai registando o peso das vítimas das nossas maldades e que a nossa alma só começa a estar em perigo quando excedemos um número convencionado de toneladas de culpa… Que te parece? Não crês que uma medida destas poderia haver sido pactuada entre Deus e o Demónio por causa do exagerado crescimento demográfico do inferno nos últimos tempos? Que te parece?»



 José Saramago, 
Don Giovanni ou O dissoluto absolvido

Primaverar

Foto: josé alfredo almeida


Primaverar é persistir  numa atitude de hospitalidade em relação à vida. Ao lado do previsto, irrompe o imprevisível que precisamos aprender a acolher.
(...)
A sabedoria dos que primaveram não consiste num conhecimento prévio, mas em alguma coisa que se descobre na habitação do próprio caminho."

José Tolentino de Mendonça

Senhora dos Montes

Foto: josé alfredo almeida

Neste ermo solitário
há uma música suave...
É o cantar duma fonte,
o chilrear duma ave.
Há tojo e rosmaminho,
e malmequeres pelo chão.
Há saudade, dor e prece,
e há também solidão.

A este ermo solitário
à Senhora vim rezar.
Para me secar a fonte
dos meus olhos a chorar.
Rezei, sereno,baixinho.
à Senhora implorei.
Não ouviu a minha prece.
E solitário chorei.

Mário Mendes

(Re)Conhecer a Régua-40


A cheia de 1962

quarta-feira, 26 de março de 2014

O meu Moledo-31



Paisagem de infância.
a margem, o rio,
onde o horizonte me convoca e foge.

tenho 12 anos, tenho um cow-boy
que vi no cinema cuidando do seu cavalo ferido
estranhamente parecido a meu pai.
ele penteava e revigorava os meus cabelos
que dançavam na praia deserta
entre eflúvios de ternura.

e cada gesto mimetizava o Sol.

um fio longo e liso do meu cabelo
captou o eco das dunas.
uma borboleta incandescente
perdida na vertigem, cruzou o meu sono.
vento, olhos, pedras e as nuvens
manifestaram a constância desse esplendor.

com um sopro dos deuses
tudo ficou calmo e azul.
o sangue, a história improvisam.

Tudo se refaz. Nunca tardo, pai.

Júlia Moura Lopes

Miúdos do SCR





Uma fotografia  com memórias  e, sobretudo,  recheada com nomes de pessoas conhecidas como o treinador, Prof. Simões, o dirigente Joaquim Saraiva, o velho massagista Silvério, roupeiro, guarda de campo - o "faz tudo"- e os rostos felizes de crianças que fizeram parte de uma equipa juvenil do SCR, o clube de coração da Régua que foi - e sempre será - a principal escola de formação de jovens como estes e  que  ali cresceram, alguns acreditaram nos seus sonhos e  todos aprenderam a ser homens com valores de cidadania e de paixão pelas cores da sua terra.
          Há quanto tempo foi? Alguém, se quiser regressar a esse tempo,  lembra-nos?

Outra vez


Foto: josé alfredo almeida

Março voltou, esta
ácida loucura de pássaros
está outra outra vez à nossa porta,
o ar

de vidro vai directo ao coração.
Também elas cantam, as montanhas
somente nenhum de nós
as ouve, distraídos

com o monótono silabar do vento
ou outros peregrinos
já sabeis como temos ainda restos
de pudor.

e pelo mundo
uma enorme, enorme indiferença.


Eugénio de Andrade

(Re)Conhecer a Régua-39


Um apontamento  sobre a  história
do actual Quartel dos Bombeiros Voluntários da Régua


Aí por volta do ano de 1947, quando por circunstâncias várias - que não vem ao caso relatar -, me vi alcandorado ao lugar de primeiro magistrado do Concelho, tive ocasião de ajudar no seu arranque definitivo, o edifício inacabado daquela prestimosa Instituição, situado na que havia de mais tarde chamar-se Avenida Sebastião Ramires. 
Tinha-se erguido um esqueleto de aspecto arquitectónico que prometia brilhar no futuro, mas durante alguns anos assim se conservou, sem portas, sem janelas, e sem telhado. Servia unicamente de sentinas públicas mas sem saneamento. 
Eu passava por ali poucas vezes - dado que não me fazia jeito pela situação da minha Repartição, e só de longe em longe avistava aquela estrutura de pedra estranhamente abandonada em plena avenida que agora mudou de nome mercê do 25 de Abril, como aliás se fez em todo o País para eliminar os nomes de figuras que, de algum modo, representavam o antigo regime que quer queiram quer não, muito fizeram por Portugal. 
Parece-me não ser a forma mais apropriada, porque a História não se faz com tretas mas sim com factos. 
Mas adiante, e retomemos o fio à meada que queremos desfiar. 
Quando tomei posse do lugar, passei então a fazer caminho pela Avenida e a deixar o carro em frente da referida obra. 
Logo no primeiro dia e por mera curiosidade, entrei nos baixos, para ver o seu interior que contrastava tristemente com aquela magnífica frontaria tão bem trabalhada, revelando o excelente artista que a tinha concebido. Fiquei indignado e enojado com o que vi, grandes buracos abertos junto aos alicerces onde se lançavam as mais variadas porcarias e muita gente ali fazia as suas necessidades, e de tal maneira, que o cheiro lá dentro era repugnante e pestilento. 
Vendo que os Bombeiros estavam pessimamente instalados na rua dos Camilos, e ansiavam por ter a sua Sede, tratei imediatamente de contactar a sua direcção, nomeadamente Jaime Guedes, infelizmente já falecido, mas o principal «motor» da Associação, no sentido de acabar o Quartel. 
Confiei-lhe os meus pensamentos acerca do que me parecia mais rápido para acabar a obra e encontrei nele a melhor receptividade.
Falei na mesma altura e troquei impressões com o Engenheiro Manuel Barreto, então Director da Urbanização, que logo se interessou pelo assunto e assentou-se em pedir a comparticipação, ao então Ministro das Obras Públicas, Senhor Engenheiro José Frederico Ulrich, que daí a pouco viria visitar a Régua. 
Quando essa visita se efectuou, levámo-lo a ver aquele espectáculo tão deprimente, e logo o Ministro deu o seu apoio e auxílio ao nosso pedido mas com a condição de se "limpar" a frontaria que não achava bonita. Combatemos a ideia do Ministro, e passado tempo ele concordou, e a comparticipação veio, e a reconstrução do Quartel principiou. 
Mas antes, e é aí que eu quero chegar,  dado que não havia portas, nem janelas, nem telhado, a Câmara da minha presidência deu aos Bombeiros os materiais retirados da demolição duma Casa que se tinha expropriado em frente da Manutenção Militar, e cujo terreno  se destinava à construção do Edifício Escolar actualmente ali existente. 
Com esses materiais taparam-se as aberturas das janelas e portas, e cobriu-se o telhado, evitando-se assim que algumas pessoas continuassem a degradar ainda mais o futuro quartel dos Bombeiros. 
Depois, em sucessivas fases, se foi acabando e alindando o edifício que é, sem dúvida, um dos mais sugestivos e bonitos do País. 
A Câmara, que acompanhou sempre com carinho a obra, instalou-lhe a água e a luz. É claro que não se pode dissociar o quartel dos Bombeiros sem evocar os nomes das pessoas que tanto trabalharam para que ele se transformasse numa realidade. Uns já desaparecidos e que deram tudo à sua querida Associação, como Jaime Guedes, o grande impulsionador! Álvaro da Silva Rodrigues, exímio artista serralheiro e meu grande Amigo, Lourenço Medeiros, e ainda vivos, António Guedes, Claudino Clemente, e outros cujos nomes me não ocorrem agora. 
Leio sempre com agrado os artigos que o meu amigo António Guedes escreve para o "Arrais" e são quase sempre alusivos à Associação dos Bombeiros de que ele foi um dos principais elementos, e certamente vai ficar contente ao ler estas linhas, recordando factos passados vai para 30 anos. E como pertence à minha geração e pode dizer-se que trabalhamos juntos na Câmara, daqui lhe envio um abraço de velho Amigo.

Manuel Alves Soares
Antigo Presidente da Câmara Municipal do Peso da Régua

Utopia

Foto: josé Alfredo Almeida

   Vou dizer-te um segredo:
   deixa que o sonho e a utopia
   te levem por esses ares...
    
   Mário Mendes

terça-feira, 25 de março de 2014

Onde estou

Foto: josé alfredo almeida
  
  Atravesso esta ponte
  para não sair
  de onde estou

  José Manuel de Vasconcelos

GPS





  Virei à esquerda como nesse dia
  em que fugimos da estrada principal
  com a certeza de que era
  possível encontrarmo-nos um no outro.
  A voz do sistema de navegação
  do automóvel insiste
  que vire à direita. Comecei por sorrir: o que sabem
  as máquinas das coisas da alma?
  E afinal o gps apenas estava tão enganado
  como eu. 


  José Carlos Barros

A minha cidade

Foto. josé alfredo almeida


A minha cidade
Tem o visco da saudade
E o nevoeiro do futuro
A minha cidade
Tem a certeza do escuro,
Mas, sobretudo,
O brilho da verdade.


M. N. Borges

(Re)Conhecer a Régua-38



Recordando...Um incêndio nas Caldas do Moledo




Certa vez - há mais de meio século - a nossa Corporação foi chamada para debelar um incêndio nas Caldas do Moledo, numa casa pertencente a Basílio Rodrigues Osório, trunfo político e regedor “vitalício”, o qual dava cartas em todas as redondezas. Nessa casa tinha instalada uma pequena loja de negócio, cuja clientela ele próprio atendia.
Era uma série de casas “gémeas” que ali havia, construídas até à altura da padieira com pedra miúda e barro e as paredes do primeiro andar constituídas por taipas, com as madeiras muito ressequidas pelas intempéries e pelo correr dos anos e que eram verdadeiros ramos de carqueja que o incêndio “lamberia” num momento, se não tivéssemos travado a tempo a vertiginosa e assustadora corrida.
Sob as ordens do 1º Comandante Camilo Guedes montou-se o serviço num prazo de tempo record, ficando nós com a certeza absoluta – adquirida logo após os primeiros jactos de três agulhetas – de que liquidaríamos rapidamente esse pequeno “biscate”.
Mas enganámo-nos redondamente.
Tendo-se esgotado a água que abastecia as bombas, proveniente de uma taça que existia – e creio que ainda existe – no jardinzinho situado em frente do edifício do Casino, tivemos de ir buscá-la para lá dos Quartéis Amarelos, a uma propriedade pertencente à Casa Ferreirinha.
Perdeu-se assim algum tempo, mas valeu a pena, pois daí em diante tivemos água em abundância, com a qual dominámos o incêndio que, devido a este contratempo, chegou a atingir proporções espectaculares e preocupantes.
Ora, quando chegamos ao Moledo já o incêndio se havia propagado à casa do tenente Francisco Nogueira, na qual funcionava uma pequena fábrica de doce, principalmente de pão- de-ló, que tinha uma vasta clientela e rendia largos lucros.
A certa altura, o nosso Comandante, sempre velando pela segurança dos seus homens, verificou que o taipal da frente se encontrava perigosamente desaprumado, dando inequívocos sinais de uma próxima derrocada e, por toques de apito - como se usava então -, deu ordem para se abandonar imediatamente o serviço. Todos nós o fizemos com ordem, com disciplina, sem atrapalhações, e procurámos lugares abrigados ou afastados.
Todos nós o fizemos. Mas houve um bombeiro, o corneteiro Agostinho “Rouxinol”, que, parado no meio da estrada, voltado de costas para o Comandante e com a corneta debaixo do braço, se moveu, não prestando atenção às ordens transmitidas pelo Comando. Estava completamente abstracto, absolutamente alheio.
Então Camilo Guedes enerva-se, dá uma breve corrida e prega um violento empurrão ao “Rouxinol”, obrigando-o a mudar de poleiro.
E dá-se a derrocada neste momento, indo o taipal, com as suas duas janelas, cair a prumo, e de cutelo, precisamente no lugar em que o “Rouxinol” tinha permanecido, tendo, ao tombar sobre o lado direito, sepultado, sob uma montanha de destroços incandescentes, o nosso velho e abnegado Comandante.
Angustiados, todos nós corremos, como loucos, para o local do desastre, tirando o Comandante da crítica situação em que se encontrava e levando-o em braços para a farmácia de Napoleão de Pinho Valente, republicano ferrenho que, por duas vezes, havia sido eleito vereador municipal.
Este tratou o ferido com todo o cuidado e desvelo, principalmente a brecha que apresentava na cabeça.
Sintetizado:
O Comandante salvou a vida ao “Rouxinol”, que não voltaria a dar, nas lindas madrugadas de Abril, os seus alegres e melodiosos trinados e gorjeios, e, por sua vez, o capacete salvou a vida ao Comandante.
E quando, chegados ao quartel, comentávamos o assunto, dizia-nos Camilo Guedes, com a cabeça empanada e a rabeta do charuto ao canto da boca: “Para se salvar uma criatura da morte certa, todos temos a obrigação de sacrificar seja o que for, mesmo que sejamos nós próprios”.
Ora, este critério está absolutamente de acordo com o exposto na poesia “O Bombeiro”, que o Comandante Camilo Guedes escreveu, há muitos anos, e que foi declamado por Gabriel Gouveia numa récita de gala em benefício da Corporação e que o Arrais publicará oportunamente.
Nessa récita, como não podia deixar de ser, também tomou parte o autor destas linhas.
Sou o remanescente desse denodado grupo de bairristas.

Belos tempos! 


António Guedes
Chefe dos BV da Régua

segunda-feira, 24 de março de 2014

Escrito de memória

Foto: josé alfredo almeida




                     Formado em direito e solidão,
                     às escuras te busco enquanto a chuva brilha.
                     É verdade que olhas, é verdade que dizes.
                     Que todos temos medo e água pura.
                      
                     A que deuses te devo, se te devo,
                     que espanto é este, se há razão para ele?
                     Como te busco, então, se estás aqui,
                     ou, se não estás, porque te quero tida?
                     Quais os olhos e qual a noite?
                     Aquela
                     em que estiveste por me dizeres o nome.

                      Pedro Tamen

Olhar


Foto: josé alfredo almeida


   Os meus olhos são um rio de cansaços,
   Repleto de fastio e alguns embaraços.
   Sós como os choupos do esquecimento
   Sós como os vinhedos em Dezembro.

   Os meus olhos são um rio de pensamentos
   Diferentes,
   Contraditórios,
   Violentos
   Mas suaves como na Primavera os rebentos.



   M. Nogueira Borges

Assim se faz o poema

Foto: josé alfredo almeida


    Toda a ciência está aqui,
    na maneira como esta mulher
    dos arredores de Cantão,
    ou dos campos de Alpedrinha,
    rega quatro ou cinco leiras
    de couves: mão certeira
    com a água,
     intimidade com a terra,
     empenho do coração.
     Assim se faz o poema.

     Eugénio de Andrade

RÉGUA - Vista Geral-1

Foto: Miguel Guedes

(Re)Conhecer a Régua-37



domingo, 23 de março de 2014

Prêambulo


"Chegara o seu tempo de recordar, que, com amar, é dos verbos mais sérios da vida."


Reformou-se com um misto de prazer e desconforto; não sabia definir bem: um aperto onde a vida se enuncia ou o prenúncio de uma saudade em que a mesma se atormenta, uma incoerência entre o que se diz e o que se faz ou o vazio de um fim que tem de acontecer e de que se ignora o depois, um alívio de incumbência ou a certeza irremovível do tempo.
Lembrou-se de quando fez o espólio, completado o serviço militar obrigatório, no regresso de África. Depois de ter sonhado, a todas as horas, com esse dia, perguntara: «E agora?» Agora tinha sessenta e cinco e não vinte e quatro anos, o futuro encolhera, mas ainda teria tempo de saber se é mais fácil ou mais difícil polir uma identidade quando se dobra a esquina do meio século. Sentia-se dono de uma serenidade sem desalento porque o passado não lhe remoía o presente e nunca se sentaria à espera das tábuas necrológicas. Uma vaga nostalgia de fim de ciclo e o afastamento dos rostos e das camaradagens ensombravam-lhe a decisão. Recuperaria os agrados antigos quando os livros o faziam viajar pelos caminhos da fantasia ou lhe levantavam dúvidas desconhecidas; ouviria as vozes que lhe ecoavam dentro enquanto o sono demorava; sentiria a revolta pelas mediocridades que excluímos de nós, num auto-convencimento de suficiência que, egocentricamente, nos compraz; observaria as pessoas e catalogá-las-ia pela testa, os olhos, o nariz, o sorriso, o falar, a pose, o andar, os gestos, fotografá-las com a distância do desprendimento que não concentra a obrigação, aquela voluptuosidade de adivinhar nos outros a (dis)concordância entre o parecer e o ser. Não seria um tíbio praticante nem um pequeno burguês preocupado com o estatuto, mas o que o tempo desse que é sempre o contrário do que se deseja. A vida ensinara-lhe que não há prudências nem regozijos programados, pois ninguém controla os desígnios. Convencia-se, por vezes, de um fatalismo insuperável e nele justificava os desaires, ausentando-se de um tempo que lhe cheirava mal, de um mau gosto intragável, e pouco lhe dizia a vida sem princípios com os deuses todos a morrer como se as gentes os inutilizassem. Vivia-se uma idade de ausência de modos, sem regras; matava-se como quem não reprimisse um instinto; insultava-se como quem praticava um costume; cortava-se com a amizade, sem um arrependimento, como se só a implicação creditasse o carácter; apunhalava-se uma gratidão como quem risca um erro ortográfico. Aprendera que noventa por cento do que se faz é inaproveitável e os dez restantes é que salvam qualquer mortal. Amava a vida, mas não esquecia a morte. Era um conflito entre a luz e a escuridão. A morte, era-lhe essa marca da infância, semelhada pela vida fora, do tamanho de uma sombra poligonal, conjecturada e não vivida. O pai morrera cedo quando ainda era um nascituro. Partira sem lhe dizer adeus, um adeus sentido, com lágrimas e com dor. Não conhecera o Pai nem sofrera a sua morte, e morte que não é sofrida nunca se aceita. Fora sempre a sua vulnerabilidade, a sua angústia, uma ferida que se disfarça, mas não sara. Finar-se-ia com essa orfandade incessante, nunca permutada. A morte, era-lhe, assim, uma injustiça divina e uma ingratidão do destino porque, crente, nunca a compreenderia na sua ocasião, suportando-a em silêncio, contra os risos e as incompreensões, os desprezos e as raivas, um castigo sem culpa, impossibilitado de apresentar provas e testemunhas da sua inocência. Transportou essa memória negra dos mortos falados nos caminhos da aldeia, as pessoas a fazerem-lhe festas como a um gato de luxo triste, e as vozes cochichadas dentro de casa a encobrirem segredos para evitar agoiros.
Da janela do seu quarto, olhava a rua cheia de carros, aflitivamente parados, os transportes públicos, biombos laranjas, engolindo pessoas de cheiros disfarçados com lavanda ou almíscar, calças justas a amparar as carnes e a atiçar as varizes, olhos esfiapados de sono, ostentação de roupas e anéis, cabelos de gel e olhares de cima, misturados, a contragosto, na selva dos dormitórios.
Chovia desalmadamente, uma chuva oblíqua ao sabor de um vento de pedras que vergastava tudo, um frio tão forte que nem o roupão lhe impedia o sentir. Respirava-se um ar de malícia, degradação e restos de capricho; dir-se-ia a insurreição do céu que derrubava árvores, casas, pontes e vidas. As televisões, os rádios e os jornais não paravam na descrição das tragédias que enlameavam terras e enodoavam almas. Era um retrato incorrigível a que não se pode alterar o vazio dos rostos na falência dos sorrisos. Parecia tudo estilhaçado num ruído de vidro antigo. Os velhos diziam que era uma maldição da natureza por tantos e tantos anos a escarnecê-la, os novos calavam-se, incapazes de entenderem as profundezas do mundo.
A sua rua era um beco de rupturas, ardil de invejas e, até, o engana–vistas do ódio. Todos queriam andar, afirmar a sua atitude, e só não passavam por cima uns dos outros porque isso corresponderia a uma destruição mútua. Olhava-os com aquele deleite de quem já tendo vivido um mal e a ele escapado, se via, agora, livre de voltar a suportá-lo. Acabavam-se os acordares com o rádio a dar as desgraças das sete, a noite ainda pesada, a chuva a zunir na floresta cimenteira.O emprego transformara-se num trabalho à tarefa, vigiado por computadores e  olhos medrosos de não agradarem aos contabilistas dos cifrões; serviços quantificados em minutos de qualidade inútil para a engenharia dos milhões. Longe iam as datas em que o dinheiro tinha a normalidade do sustento e não a exclusiva ganância de um lucro, em que se solidarizavam valores e o companheirismo defendido como arma de classe. Agora, era tudo de uma dolorosa deselegância e indiferente comodismo; ontem, havia pobres e ricos, hoje, desgraçados e milionários; ontem, lutava-se por reciprocidades, hoje, por imitabilidades. A revolução, nascida de um grito refreado durante décadas, nacionalizara, de afogadilho, os grandes grupos para depois os revender aos antigos ou novos donos. Era a quitação das facturas, o ajuste de contas, a adaptação ao novo liberalismo de tiques nunca esquecidos, mesmo que alguns falsos estalinistas, praticando astuciosa duplicidade, fingissem amargura com os bolsos já cheios na amálgama revolucionária.
Quando a tecnologia começou a dispensar o raciocínio e a apelar ao titerismo, a ginástica mental sorrateiramente despedida pela eficácia cibernética, os sentimentos anestesiados pelo clorofórmio dos indicadores de rentabilidade e os corações endurecidos pelas cantilenas tecnocráticas, poucas dúvidas lhe restavam de que o seu prazo de validade estava a chegar ao fim. Concebia a reforma à moda antiga quando da função se saltava para um púlpito de onde se viam as pessoas e as coisas com a calma da experiência, mesmo de azimute encurtado. A viagem para o esquecimento tinha novos entendimentos e as prateleiras empresariais estavam cheias de inocentes ultrapassados pelas modernas gestões de recursos humanos para quem um SER é uma atrapalhação. Juntaria os seus anos de militar à força, descontados a preço rapace como se o tempo dado às fardas fosse um interlúdio turístico, e voltar-se-ia para a nascente da sua esperança para com ela percorrer as últimas milhas do seu termo.
A vida era de uma brevidade assassina e os afectos não a comandavam. A sobrevivência fazia-se pelo assentimento do silêncio. Quando afrontava a pestilência, perdia sempre; não sabia mover-se no charco da intolerância. No meio, até ao estoiro, ficavam os espasmos da alma. Pensava, pensava muito, e entusiasmava-se tantas vezes calado que, quem o visse, julgá-lo-ia um asténico de sorriso exegético ou dúplice, com as lágrimas sobressaltadas tanto na inquietação quanto na placidez. Pertencia àquele modelo a quem se pergunta se algum problema o incomoda e a explicação nunca se dá porque é impossível entender como resposta: « É o mundo que me aborrece, tão injusto ele é. » Dizer isto é um estorvo, uma idiotia, uma excentricidade que coloca qualquer um no lixo esquizofrénico. Mas era a sua resposta, não tinha outra, e, quando o Inverno  lhe castigava os ossos, só a ironia o ajudava a suportar as horas. Era um ironia metálica, mistura de palavra laminada e olhar cortante - tamanho o sarcasmo - que condescendia com a perturbação e o insulto alheios como se eles lhe justificassem, ainda mais, a desafectação com que os encarava.
Iria, então, encher as folhas virgens dos seus cadernos, ditar-lhes memórias e hojes, mesmo que não achasse o termo correcto para o que se sente e se quer dizer; escrever até ao cansaço, até doer, correndo os perigos de não o perceberem, na desilusão das suas esperas e na acusação dos seus conceitos; escrever para espantar demónios, destruir fantasmas, repelir sofomaníacos, aplacar despeitos, desfiar paixões e dedilhar desejos. Ele sabia que quem escreve não é eunuco, e dar luta à frieza humana contraria o fim civilizacional. Por isso, escreveria, mesmo que as gavetas engolissem as suas palavras, mesmo que um dia as rasgassem, mesmo que um dia as queimassem. Floresceriam com ele numa fraternidade impaciente e perturbadora, num sonho de sede insaciável.

Chegara o seu tempo de recordar, que, com amar, é dos verbos mais sérios da vida.

M. Nogueira Borges in Lagar da Memória.

Escrita das lavadeiras



“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.” 


Graciliano Ramos

Antes do fim

Foto: josé alfredo almeida

 Amanhã,
 quando abrir a janela
 do meu quarto
 ver-te-ei...

 Mário Mendes

Deixem-me partir

Foto: josé alfredo almeia

 Deixem-me ir,
 rio acima,
 deliciar os sentidos
 nos dionisíacos jardins
 de oliveiras bordejados,
 escutar o silêncio
 no voo dos milhafres,
 no grito das garças
 que cortam o ar.

 Mário Mendes

(Re)Conhecer a Régua-36


A minha rua - presente

Foto: josé alfredo almeida

Não vivo aqui, mas é como se vivesse. Aqui, nesta rua, mesmo no chamado  Cimo da Régua - onde outrora houve um  polícia sinaleiro para o trânsito - (quem tem uma foto desse tempo?) tenho há mais de 20 anos o meu escritório de advocacia, num prédio de construção recente que, antes, tinha sido uma velha casa da viúva Vilela emprestada aos bombeiros da Régua e que, no final dos anos 20 e até 1954, tiveram  ali instalado o seu minúsculo quartel. 
Esta é a  rua  principal do pequeno comércio da Régua,  como a mercearia do Arnaldo Marques, a do Borrajo e do Grande Ponto,  dos cafés mais antigos e concorridos como o Nacional e o Imperial, de algumas  farmácias de prestigio, de serviços públicos como os correios, do Instituto dos Vinhos  do Douro e Porto e a instituição representativa dos lavradores, a  Casa Douro, a viver há alguns anos um tempo de agonia que nos deixa com poucas esperanças no futuro.
  

A minha rua - passado


sábado, 22 de março de 2014

Atravessa-me

Foto: josé alfredo almeida

Se me disserem que estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e que me esperes,
eu atravesso essa ponte.
Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e eu atravesso-a.

Amalia Bautista

Uma instituição, um escritor e um dirigente






Nem todas as profissões/actividades geram consensos. Sempre de faca afiada para cortar em casacas alheias, de língua mais vocacionada para dizer mal do que bem, o nosso povo é implacável, parecendo mais feliz a valorizar os defeitos do que a exaltar as virtudes dos cidadãos incumbidos, cada qual no seu posto, de servir a comunidade.

Salvam-se os bombeiros! Em desespero de causa, os que necessitam do seu auxílio, por vezes acusam-nos de demorarem muito tempo a chegar, desabafo justificável em quem se rege por um relógio cujos ponteiros avançam ao ritmo da sua ansiedade. Há que compreender o desespero de quem vê os seus bens, por vezes tão suados e tão parcos, à mercê de labaredas assassinas ou de quem, em perigo de vida, aguarda a chegada de uma ambulância salvadora.

Falar da acção filantrópica e abnegada dos bombeiros é repetir palavras gastas. Eles sempre foram, e ainda são, os ídolos da pequenada, os heróis e o orgulho das populações. Com farda de gala parecem generais. De equipamento de trabalho, limpo à saída do quartel e em estado imprevisível no regresso, impõem-se sem pretensões, agem como super-homens. Não têm tempo de olhar para o lado. Todas as energias se concentram na resposta aos apelos que lhes chegam.

Não posso falar especificamente dos Bombeiros Voluntários da Régua. Conheço um pouco da sua história através da palavra escrita e imagino a sua dinâmica ao ver o “brilhozinho nos olhos” do Dr. José Alfredo Almeida quando deles fala. Também cheguei até eles conduzida pela mão segura e pelo espírito apaixonado do Dr. João de Araújo Correia cujas crónicas são manuais de cidadania, de defesa do património humano, cultural e identitário da região duriense.

Em Pátria Pequena, na crónica “Biblioteca Maximiano de Lemos”, o autor escreve, dividido entre o pessimismo e o optimismo: “Na Régua, é tradição que falhem todas as iniciativas. Falharam as touradas, as exposições fotográficas, o teatro de amadores, o orfeão, a parada agrícola, os desportos náuticos e até o carnaval inventado pelo Chico Pulga. Tudo falhou, menos a Associação dos Bombeiros Voluntários, fundada em 1880, e de ano para ano, mais florescente”.

É do mesmo escritor a avaliação da sua terra feita na citada colectânea de crónicas: “A Régua, donde quer que se aviste, é uma jóia. Mas, o que lhe dá realce é o estojo, isto é, a concha em que assenta, a bacia da Régua, com as suas montanhas, as suas colinas e o seu rio. Tocada de perto, sem escrínio à vista, desfaz-se-lhe o encanto. É uma jóia de chumbo ou, quando muito, de plaqué.”
Esta apreciação, feita em 1959, não perdeu actualidade. A exemplo do que vem acontecendo um pouco por este país, as cidades têm crescido anarquicamente, obedecendo a estereótipos urbanísticos para os quais o conceito de identidade é um anacronismo caturra. Vão resistindo à demolição, libertando-se da lei da morte, além de monumentos de interesse histórico, alguns edifícios de autor, com marcas de determinada época, contraponto risonho à construção de imóveis incaracterísticos, preço alto pago à explosão demográfica.

O edifício do quartel dos bombeiros da Régua é uma pedra preciosa incrustada em colar de pechisbeque. A sua frontaria merece uma paragem no passeio oposto para que possa ser devidamente gozada esteticamente. A harmonia cromática, aliada à elegância e ao bom gosto dos motivos escultóricos, singularizam este exemplar ímpar de arquitectura urbana não residencial.
Se o meu coração está preso, por razões familiares, logo afectivas, aos Bombeiros da Cruz Branca de Vila Real, a minha simpatia abrange, em abraço fraterno, todos quantos, no país e no mundo, assumem como prioridade das suas vidas a defesa de vidas outras.

Termino este sucinto testemunho com uma palavra de apreço pela acção desenvolvida em prol dos Voluntários da Régua pelo Dr. José Alfredo Almeida, enquanto entusiasta presidente da sua direcção e também como investigador incansável da história da Corporação, bem patente no seu livro Memórias dos Bombeiros Voluntários da Régua, exaustiva análise de factos e de figuras que lhes deram corpo.

M. Hercília Agarez

(Re)Conhecer a Régua-35



O meu desejo

Foto: josé alfredo almeida


                    O meu desejo na primavera:
                    que mesmo as flores selvagens
                    venham florir à minha porta


                     José Tolentino Mendonça

Regresso por um rio

Foto: josé alfredo almeida

 se regressar, será aos teus olhos que regresso.
 os acasos ardem nos lábios dos amieiros que na margem do rio
 aguardam que regresse. a isso regresso, buscando
 coincidências e nomes, razões. afasto-me
 provavelmente de ti, embora secretamente.

 é por isso estranha a forma como os acasos ardem
 para sempre. a outro rio e sob outras sombras
 regresso, devagar para não ferir o que antes amei
 e por quem morri muitas vezes. agora de novo morro

 e por outro rio regresso até ao lugar onde elas, as aves,
 nascem para não desaparecerem. e isso é como permanecer.

Francisco José Viega

sexta-feira, 21 de março de 2014

(Re)Conhecer a Régua-34

Foto: a. santos


Além da Literatura



Além da Literatura, de João Bigotte Chorão, "crítico e ensaísta, tem procurado dar à obra o que é da obra e ao autor o que é do autor", é um livro da  editora Quetzal, acabado de sair, que recomendo ler.

A literatura que não seja apenas exercício linguístico ou texto sem contexto persegue um alto objectivo: é uma aventura espiritual que, sem descurar a importância da linguagem e a circunstância histórica, se preocupa sobretudo com o destino do homem e com o fim dos tempos. 
O debate de ideias pressupõe cultura e senso cívico, e nós somos um povo de apaixonados e repentistas. Não conversamos: discutimos. Temos fé e temos rasgo, e a fé dispensa da procura e o rasgo dispensa do estudo. 
O Dr. João Bigotte Chorão pertence ao número de autores que privilegiam as "grandes famílias" de que falava Raïssa Maritain, em que se integram Almeida Garrett, Camilo, Malheiro Dias, Torga, Tomaz de Figueiredo, Eliade, Papini, Machado de Assis e, muito em especial, os médicos e escritores reguenses João de Araújo Correia e Camilo de Araújo Correia. 

Voo das árvores

Foto: josé alfredo almeida
 Chamo
 a cada ramo
 de árvore
 uma asa

 E as árvores voam

 Mas tornam-se mais fundas
 as raízes da casa,
 mais densa
 a terra sobre a infância.

 É o outro lado
 da magia

 Carlos Oliveira 

Poesia

Foto: josé alfredo almeida



a poesia protege-te
dispõe-se em ti como uma árvore a guardar uma paisagem
circunda-te de torres que deixam ver o céu.
não temas pois o cerco
que o horizonte alarga-se por entre as portas
em cada pedra cada tábua começa um poema
se guião ou guardião não sabemos
pronuncia apenas as palavras
na língua o vendaval
e há quem diga que morre desprotegido
há quem diga que a palavra volta ao mundo
latente
sacrificada
em nome das matérias que luzem menos
para se fazer da tábua a pedra
da casa o poema.

André Tomé