terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Escrevo, porque é preciso

Foto:vítor santos


"Começei a escrever em pequenino, antes de saber o que é a gramática e o que vem a ser a redacção, peguei numa pena e começei a escrever. O meu primeiro artigo, lembro-me bem, era eu estudante de primeiras letras, foi um artigo...necrológico. Foi, melhor dizendo, um necrológio. Tinha morrido um homem, passou-me à porta o acompanhamento, e eu quis dizer quem foi aquele homem...À noite, sobre a mesa da sala de jantar, enquanto a casa dormia, pus-me a escrever acerca do defunto. Não conclui o artigo, porque minha mãe, à fina força, me obrigou a meter na cama. Desde então, parece que é fatalidade, sempre que tento escrever alguma coisa, sou obrigado a fazer outra. Penso que minha mãe, coitada, legou a vara do comando a uma boa madrasta, que para mim tem sido a vida. Por caçoada, em vez de me obrigar a deitar como a minha mãe fazia, obriga-me a velar, cuidando de tudo, menos de encher papel, que é o meu gosto. O óbice da madrasta, criatura esperta, que me segreda, em horas calmas, a obrigação de viver. Em horas más, baila como uma megera e afirma, batendo o pé, que a porcaria das letras, em Portugal, não dá para uma broa de Avintes. É pitoresca, nessas oicasiões, a minha querida madrasta.
(...)
Posso dizer como o outro: escrevo, porque é preciso."


João de Araújo Correia

Pontes da Régua-921

Foto:josé alfredo almeida

Sem luz

Foto:josé alfredo almeida

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Eternamente Douro-20

Foto:josé alfredo almeida




"A construção da paisagem monumental do Douro envolveu várias gerações, homens de negócios do Porto ou proprietários das firmas de Gaia que tiveram de travar um duro combate com a natureza ao longo de séculos. O resultado, um dos mais fascinantes testemunhos do esforço humano, é um tecido com várias composições de formas e cores, um caledoscópio vegetal."



Manuel de Carvalho in a Ilha de Xisto - Guia do Porto e do Vinho do Porto

Pontes da Régua-920

Foto:josé afredo almeida

120º aniversário da Cruz Branca

Corpo activo dos BV de Salvação Pública-Vila Real,1897


Falo em nome da direcção da Associação de Bombeiros Voluntários de Salvação Pública e Cruz Branca, que me mandatou para vos dirigir umas breves palavras pelo facto de, há 120 anos, fazer parte do grupo dos seus fundadores Francisco Ferreira da Costa Agarez, meu avô. O envolvimento activo da família teve seguimento, e é com orgulho que invoco o meu pai, Alcídio Agarez, o primeiro (ou dos primeiros) a conduzir a primeira ambulância, pois teve carta de condução aos 18 anos.
Começo por manifestar o nosso agradecimento a quantos tornaram possível esta exposição, o melhor presente que podia ser-nos oferecido. Obrigados Senhor Presidente da Câmara, Sr. Dr. Vitor Nogueira, director do Museu do Som e da Imagem, Senhor Duarte Carvalho seu dinamizador. Obrigados a quantos colaboraram nesta iniciativa meritória. Merecem-na os nossos bombeiros e os seus corpos sociais. Merece-a a cidade que sempre acarinhou os "bombeiros" de baixo a que os mais antigos continuam a chamar assim, mesmo depois de o quartel ter dado um grande salto, ficando acima dos bombeiros de cima (leia-se Cruz Verde).
A história de uma instituição idosa (mas não velha) não cabe nas páginas de um livro, nem em espaços museológicos ou expositivos. Duarte Carvalho, contudo, com o seu entusiasmo por tudo o que a Vila Real  diz respeito e com a sua dedicação e profissionalismo enquanto responsável por este espaço, proporciona ao nosso olhar uma retrospectiva criteriosa e marcante em termos identitários do que foi a Cruz Branca num passado em que sobressaíram heróis como o bombeiro Porfírio, dirigentes qualificados, comandantes interventivos, figuras tão queridas como o Senhor Padre Filipe, primeiro capelão da história das corporações humanitárias, o jornalista polémico, farmacêutico e comandante  Heitor Correia de Matos, o inspirado autor de peças para os saraus e apaixonado fotógrafo, Aquiles de Almeida, para não me alongar.
Não sei quem baptizou os bombeiros de "soldados da paz", mas atrevo-me a discordar. Será pacifica a sua actividade? Uma floresta a arder descontroladamente não será um teatro de guerra? Eles não usam espingardas, mas agulhetas e machados, e cordas e capacetes e escadas. Não vestem camuflados. Com as suas fardas de trabalho levam cor a ambientes onde impera o negro do desespero. As chaimites deles são as ambulâncias, os carros de socorro a fogos urbanos e florestais, os barcos das equipas de mergulho. Os seus inimigos são chamas destruidoras de bens e de animais, de pessoas até. São as neves do Marão e do Alvão. As águas do Corgo e do Douro. As quedas de água de Ermelo. Os acidentes rodoviários. As doenças de idosos desprotegidos, em aldeias recônditas, sem outro meio de transporte para tratamentos que não sejam os veículos específicos habituados a todos os terrenos e a todos os sofrimentos. As armas dos bombeiros são a sua disponibilidade, a sua entrega à missão filantrópica, o seu espírito de sacrifício, a sua coragem, a sua capacidade de secundarizar a família e a vida social  perante o cumprimento de uma obrigação-devoção. Dos bombeiros se espera que sejam tábuas de salvação. Por isso eles são, também,  enfermeiros e parteiros e desencarceradores e abridores de portas, e mágicos que fazem desaparecer águas de inundações. E muito, muito mais.
Os vila-realenses sabem que podem contar connosco. Como recompensa dos serviços prestados, contentam-se as nossas bombeiras e os nossos bombeiros com um sorriso dos socorridos, com uma palavra tão simples como obrigado.
E é com um sentido e comovido obrigado que reiteramos a nossa  gratidão por este momento inesquecível a arquivar num cantinho recatado da nossa memória.



M. Hercília Agarez, Vila Real, 6 de Janeiro de 2017

domingo, 29 de janeiro de 2017

O espectáculo já começou

Foto:josé alfredo almeida

O belo é o esplendor do verdadeiro

Platão

A qualquer momento nos oferece a natureza um espectáculo de gala. Convoca os seus elementos, impondo-lhes esmero no traje, leveza de cisnes em lago, melodia de cítara, transparência de cores.

Variam os cenários, de acordo com tempos e espaços. Todas as nuances são encantatórias: o melancólico e artístico cinza, o negro à espera de reverdecer, o ingénuo branco, o místico azul, o fulgurante arco-íris outonal, o amarelo avermelhado e ocre a incendiar nascentes e poentes. O ar, esse, esquiva-se à fotografia, mas sentem-no, respiram-no, os espectadores que dispensam poltronas e camarotes enquanto aguardam que suba o pano e soem as pancadas de Molière.

Neste brinde bem-vindo, em tons repousantes e despretensiosos, parece faltar o fogo. Talvez não. Se, como diz Camões, "amor é fogo que arde sem se ver", não faltarão chamas invisíveis...


M. Hercília Agarez, 27 de Janeiro de 2017

Manhã de chuva

Foto:josé alfredo almeida


Chove chove
chuva chove
Chove chuva
chove cá.
Já choveu

uma chuvada
numa chávena de chá. 
Numa chávena de chá
numa chávena chinesa

chove chuva
chuva chove
no chá da dona Teresa
Chove chuva 
chuva chove.

Chove chuva
chove cá.
Já estou farto de chuva.
Quero tomar um chá.



                                                                    António Mota

Pontes da Régua-919

Foto:josé alfredo almeida

sábado, 28 de janeiro de 2017

Clique. Já está!





Nesse Verão, que parece ainda tão perto...

A Mãe penteou-lhe o cabelo, cuidadosamente.
Depois de vestida, calçou os sapatos novos com apenas dois dias.
Olhou-se ao espelho e achou que estava bonita.
Naquele dia, ia tirar uma fotografia ao estúdio fotográfico do Sr. Baía.
A mãe prometera-lhe, uma foto montada num cavalinho de madeira.
Enquanto esperava que a Mãe se acabasse de arranjar,
andou de lá para cá, ao pé coxinho, pelo longo corredor
que atravessava a casa.

Saíram para a rua de mão dada, ela de sorriso no rosto acenava à vizinhança.
Adorava passear pelas ruas,
passar à frente da estação, ali onde os vendedores de fruta vendiam à sombra, melões, melancias, laranjas, fruta sempre muito doce que o Avô costumava comprar e levar para casa.

Depois na Rua dos Camilos, numa tenda de rua, a Sra.
Celeste que vendia as melhores bananas do mundo.

Mais à frente, ao passar pelo bazar
viu na montra o bebé chorão que andava a namorar há imenso tempo.
Quem sabe se desejasse com muita força aquele boneco, talvez lá em casa alguém lho oferecesse?

Por fim o momento já esperado,
a casa Foto-Baía na Rua da Ferreirinha.

A Mãe montou-a no cavalo de madeira, lindo de morrer.
O Sr. Baía posicionou-lhe delicadamente o rosto para ficar perfeita na fotografia...                            
Clique. Já está!

Naquele espaço de tempo,
sentiu-se uma índia dos filmes de cowboys.
Não sabia bem porquê, mas torcia sempre pelos índios,
quando os homens brancos tentavam ocupar as suas terras ou explorar riquezas nos territórios onde eles acampavam.
Sempre que brincava aos cowboys com as outras crianças no quintal da sua casa, gostava de ser sempre uma índia voluntariosa, no seu cavalo negro.

De regresso, lanchou um croissant no Grande Ponto.

Durante semanas, contou às vizinhas histórias do seu extraordinário passeio a cavalo, por terras e vales inventados.
E de um rio de oiro, onde parava para descansar e saciar a sede do seu cavalo.

Nesse Verão,
tão longe e ao mesmo tempo tão perto.
Da menina.

E de mim.


Ana de Melo

Chove

Foto: josé alfredo almeida




Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim!



Fernando Pessoa

Pontes da Régua-918

Foto: josé alfredo almeida 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Eternamente Douro-19

Foto:josé alfredo almeida




"E se as diferenças climáticas são prepoderantes, nestas latitudes...As serras do Marão, na margem norte do Douro, e de Montemuro, na margem sul, formam uma barreira natural para os ventos do atlântico. O resultado é um micro-clima quente e seco que produz vinhos de excelente qualidade."


Paulo Farinha

Barco na paisagem-248

Foto; josé alfredo almeida

Pontes da Régua-916

Foto: josé alfredo almeida

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Fico só

Foto:josé alfredo almeida


Fico só, sabendo
que todos os objectos têm a
forma do teu corpo, e
todos os sons se reconduzem
à tua voz. não deambulo
pela casa – excessiva de ti – fujo-lhe
na ausência de movimento e
no desejo de ficar absolutamente
só. lembro-me de como não gostas
de me ver chorar.



Valter Hugo Mãe 

Pontes da Régua-915

Foto;josé alfredo almeida

Repousar ao sol

Foto: josé alfedo almeida

Arte urbana-35

Foto:josé alfredo almeida

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Sei de um vale

Foto:josé alfredo almeida



Sei de um vale.
Em que as manhãs acordam as nuvens que dormem no rio.

De um sonho que atravessa os tempos.

E os olhos que espreitam das janelas, redescobrem as pontes
 envoltas em fumo de neblinas,
 que sobem aos montes e se perdem nos céus, nesses dias, em que os dias são contados ao compasso da respiração.

Sei de um lugar.
Em que os caminhos parecem toalhas brancas, orvalhadas nos dias gélidos de Inverno.

Um lugar que mudou no tempo, mas a sua essência é antiga e mística.
E nas madrugadas brancas, há ecos de gente, movimento em direcção ao rio, portadas a abrirem-se.
E quando neva, as árvores acordam vestidas de espanto e os flocos brilham à luz das luzes ainda acesas.

Gerações e vidas cruzadas, onde deuses e espíritos convivem nas margens do rio, na obscuridade dos montes e vinhas, nas casas com história.
Onde se sente o passado.

Sei de um vale
Que de tão encantado, precisa de ser visto ou lido com o coração, como um livro precioso.


Um vale no Douro.



Ana de Melo

Eternamente Douro-18

Foto: josé alfredo almeida


Sempre a vinha (...) é uma das mais de cem mil parcelas de terreno inclinado cultivadas com vinha da Região Demarcada do Douro.

(...)

O Alto Douro Vinhateiro, Património da Humanidade ocupa cerca de 10% dos 250 mil hectares de paisagem..."


Paulo Farinha

Pontes da Régua-913

Foto: josé alfredo almeida

sábado, 21 de janeiro de 2017

Azul friorento

Foto:josé alfredo almeida



Céu azul: cenário soalheiro de todas as belezas.
Torre sineira: a dignidade barroca imune ao fugir dos séculos.
Relógio de granito rendilhado: marca o passo de quem passa.
Sino mudo, perfilado: aguarda, pachorrento, mandos de quem manda.
Pomba tremida, de tanto tremer: tocata e fuga...
Galhos de árvores, pindéricos: repas ralas de velha enxovalhada.

Avenida: reino de Diogo Cão, navegador, de Carvalho  Araújo, herói do mar, dos Marqueses de Vila Real, padrinhos do manuelino local. Uma identidade,
 uma sala  de espera sempre a dizer, à transmontana: 
"Entre quem é!"



Vila Real, 20 de Janeiro 

M. Hercília Agarez

Pontes da Régua-912

Foto:josé alfredo almeida

Manhã de frio

Foto: josé alfredo almeida



Manhã de frio -
Com o agasalho, visto
Saudades de minha mãe.




Paulo Franchetti

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Altar

Foto:josé alfredo almeida



Fico só entre mim 
e o nome que dou
 às coisas 


Marta Chaves

Teu mar

Foto:josé alfredo almeida



Esperta o espírito gardián 
dos mares 
e como unha pregaria 
repítese cada día perdémonos 
no brillo que nel 
se reflicte 
de dourados tons e 
delicados ocres suaves. 

Todas as mañás nacen 
do mar 
e bican ao día coa súa lingua 
de lume 
abrázanse ao horizonte no 
caer da tarde 
para durmir cos astros baixo 
o escuro espello. 

Esperta o espírito gardián 
dos mares
na liña que separa a luz das
sombras 
a vida móstranos o seu fugaz 
resplandor 
e nas súas mans 
só somos po de estrelas.



Carmen Muñoz Fernandez 

Pontes da Régua-911

Foto:josé alfredo almeida

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Eternamente Douro-17

Foto:josé alfredo almeida



"Gostava de saber mexer com as palavras certas. Na verdade, não consigo descrever o que sinto quando se abre a primeira janela sobre o Douro na descida de Mesão Frio para a Régua. Bem arregalamos os olhos, mas é difícil de absorver tudo o que se vê. A força e a quietude de tamanha paisagem. O Douro impõe múltiplos olhares, provoca emoções várias. Estimula os cinco sentidos. Na primeira oportunidade, paramos. À nossa frente estende-se o manto de um dos mais impressivos territórios vinícolas. Mudos e quedos observamos, pela enésima vez, o vitral. Sempre diferente. Mastigamos o tempo e, em câmara lenta, passamos os olhos pela soberba tela de génio. Na retina fica-nos um rio afogado por duas linhas indeléveis."


Ricardo Magalhães

Matar a sede

Foto:josé alfredo almeida



Secou a fonte da aldeia
ficou a bica
qual seio sem leite.

O vento exaltado
despenteia as árvores
e as mulheres


M. Hercília  Agarez in As Asas da Libelinha

Pontes da Régua-909

Foto:josé alfredo almeida

Pontes da Régua-908

Foto: josé alfredo almeida

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Eternamente Douro-16

Foto:josé alfredo almeida


"A natureza deu a matéria-prima, mas o homem teve de se esforçar para tirar o sustento da terra. Na verdade, nem terra havia. Só pedra, que foi preciso partir para criar solo, onde se plantou a vinha.Os socalcos lá estão: os mais antigos resistentes à passagem dos anos, a lembrar que o que ali cresceu foi regado com suor, e os mais recentes, adaptados às novas necessidades técnicas que foram surgiundo, como prova de que o engenho humano nada - nem na natureza - pode fazer frente.
Muitas encostas prenchidas de cima a baixo têm diferentes artistas em diferentes épocas. O Alto Douro Vinhateiro é um exemplo notável de paisagem que ilustra diferentes etapas da história humana."


Paulo Farinha

Pontes da Régua-907

Foto: josé alfredo almeida

(Re)Conhecer a Régua-276


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

(Re)Conhecer a Régua-275




   Era assim, por volta de 1900, o cais fluvial da Régua....destinado
   ao transporte do vinho generoso.

Eternamente Douro-15

Foto: josé alfredo almeida




"Primeiro veio o rio. 
Abriu caminho pelas serras, escavou um leito nos vales e moldou a paisagem. 

Depois veio o homem. 
Navegou o rio, partiu a pedra, fez chão dar vida, deu forma às encostas. 

E  a paisagem foi novamente moldada.

Por tudo isto, o Douro é Património da Humanidade."


Paulo Farinha 

Voltar a casa

Foto:josé alfredo almeida


S. Martinho de Anta: a casa onde nasceu e viveu o poeta Miguel Torga





"À medida que envelheço sinto que o único tema da literatura - e provalvemente de tudo o mais - é o passar do tempo."




Fernando Marías

Pontes da Régua-906

Foto:josé alfredo almeida

Pontes da Régua-905

Foto:josé alfredo almeida

domingo, 15 de janeiro de 2017

Paisagem para sonhar

Foto: josé alfredo alfredo


É preciso furar o nevoeiro
é preciso espreitar além do escuro
é preciso ser forte e ser inteiro
é preciso ter crença no futuro.

É preciso tentar chegar primeiro
é preciso ser livre e ser seguro
é preciso ver longe e ser certeiro
é preciso arriscar saltar o muro.

É preciso ser lúcido e sonhar
é preciso ter asas e voar.


Torquato da Luz