sábado, 30 de novembro de 2013

Lugar do Coração

Foto: josé alfredo almeida


Descobri que o verdadeiro lugar onde corre um rio é o lugar do coração. 
         

         José Alfredo Almeida

Caminho do rio

Foto: josé  alfredo almeida

Beira-Rio

Foto: josé alfredo almeida

Pontes de Magia

Foto: josé alfredo almeida

Todas as pontes

Foto: josé alfredo almeida

Da varanda da Biblioteca dos Bombeiros

Foto:  josé alfredo almeida

Avenida dos Plátanos




Aqui começam todas as minhas histórias:esta é a avenida dos plátanos que me deixou partir e me traz de regresso  à procura  das memórias que ficaram presas no sorriso da criança que, numa tarde quente de Agosto, deixou  fugir no céu imensamente azul, a sua estrela de papel construída com o carinho e a habilidade  do avô Saraiva, homem sábio  que não sabia ler nem escrever,  mas que me  ensinou  a olhar a vida com a sua humildade e os valores morais mais preciosos para ser um homem. Não sei se com ele aprendi tudo, mas sei que aprendi as coisas simples e  importantes que não se ensinavam na minha escola primária.
Aqui estão às minhas memórias: nós somos o que lembramos e esquecemos e  ao voltar a elas podemos reconstruír o nosso passado. Mas, que me dera reconstruir esse brinquedo da minha infância, a estrela de papel  do meu avô e de a poder lançar, outra vez, a voar num céu infinito.Para que ele possa  saber,  que tudo valeu a pena!

José Alfredo Almeida

Amanhecer

Foto: josé alfredo almeida


É esta primeira luz que desce sob os montes  pintados e que ilumina os meus caminhos e os meus  desassossegados e inquietos pensamentos.  
Aqui há tempo e vagar para perceber que, mesmo acreditando na Eternidade,  tudo na vida é efémero.

                    José Alfredo Almeida 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Remostias

Foto: josé alfredo almeida


" Nestes montes, não há nenhumas flores!
Nem gota de água para um passarinho...
Há rochedos que dão azeite e vinho,
Quinta-essência do suor dos cavadores."
João de Araújo Correia in  "Lira Familiar"

O meu Moledo-1

Foto: josé alfredo almeida

Rua dos Camilos

Foto: josé alfredo almeida


"A rua dos Camilos, Chiado dos reguenses, pode facilmente com a boniteza. Mas, é menos feia, e até bonita, no alto da rua da Alegria e no alto da rua 1º de Dezembro. É que, desses cumes, se descortina ao fundo, como num caixilho, um peregrino trecho de paisagem." 
João de Araújo Correia in "Pátria Pequena" 

Museu do Douro-1

Foto: josé alfredo almeida

Por este rio acima


Foto: josé alfredo almeida


Os rios na paisagem são como as imagens nos poemas: clarificam-lhes o sentido mais profundo, espelham-nas e memorizam-lhe o  destino de permanecer em perpétuo movimento.

           José Alfredo Almeida 

Paladino do Douro

Foto: josé alfredo almeida


"Quando chegámos à Régua, já o meu pai andava azafamado. Esperava, no comboio do meio-dia, o jornalista Pádua Correia, que ia a Lamego fazer um discurso ou uma conferência.
- Que poderá ele comer?, perguntava meu pai a si mesmo, encomendando, na estação da Régua, o almoço do jornalista.Uma canja e pouco mais.É um pastel!
Fiquei sabendo que um homem, um jornalista, podia ser um pastel e, nessa qualidade, comer só canja e pouco mais.
(...)
Chegado o jornalista, lá fomos com ele, por aí acima, até Lamego.Acompanhou-nos também o Dr. Antão de Carvalho, que, nesse tempo, usava ainda barba em bico.Fomos de automóvel, coisa rara, na estrada de Lamego, em 1907 ou 1908, como hoje é raro um cavalo.
A noite, no teatro, assisti à conferência, discurso ou coisa que o valha, do jornalista Pádua Correia.Muito antes deles e depois dele, outros oradores falaram. o Dr. Antão, com a sua barba tribunícia, aguçada como um prego, não deixou de espetar  também o seu discurso."


João de Araújo Correia in "Manta de Farrapos"

Vila Termal



“A Régua, se quiser, poderá vir a ser uma grande vila termal. Para conseguir esse rendoso título, basta-lhe ser vizinha das Caldas do Moledo se não quisermos atentar, por agora, noutras estâncias caudais suas limítrofes. Não se desprezem, que o não merecem, as Águas de Covelinhas, as de Cambres e as do Tedo.
Centro de valioso conjunto hidrológico, a Régua, por favor da natureza, é uma vila termal. É-o de direito. Mas, só o será de facto quando se resolver a estudar e avaliar o muito que tem de seu em águas medicinais. Se apenas se contentar em ser um centro de vinhos, será perdulária de bens que poderão sobredoirar ou equilibrar a costumada receita – às vezes tão precária, tão triste, que merece o nome de angústia.
A Régua não pode alhear-se da boa ou má fortuna das Caldas do Moledo. Se é humana, deve orgulhar-se de as possuir e doer-se do seu abandono para lhe dar remédio. […]
A Régua, se quiser, virá a ser uma grande vila termal. Para conseguir esse rendoso título, deverá despedir-se para todo o sempre, da sua rica inércia.”
João de Araújo Correia in "Pátria Pequena"

      PS- A Régua deixou de ser vila, mas continua mergulhada na mesma inércia, pois as termas do Moledo lá continuam incompreensivelmente encerradas. O que nos tolda a visão?

Antão de Carvalho

Foto: josé alfredo almeida 


"A liberalização da produção e comércio não funcionou na região e na segunda metade do século, na ausência de um proteccionismo estatal, foi a sociedade civil que se uniu para criar mecanismos de defesa para os vinhos do Douro.
Os viticultores associaram-se, fizeram-se reuniões e publicamente sublinharam a necessidade de proteger os vinhos durienses.
Fica aqui o exemplo da História para quem quiser presta-lhe atenção."  


Célia Taborda in "Clivagens sociais no Douro oitocentista"

Contemplar

Foto: josé alfredo almeida 


"Faz tudo como se estivesses a ser contemplado."
           Epicuro

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Camilo de Araújo Correia



"Eu não sabia, é claro, o que era ser mascote. Mas fiquei a saber, dolorosamente, que as crianças podiam usar farda, capacete e machadinha como os bombeiros grandes.

É bem certo que neste mundo é que elas se pagam. Deus, na sua infinita ironia, acabou por me fazer bombeiro, cerca de trinta anos depois do meu ataque de inveja. Vim a ser Presidente da Direcção por entusiasmo e crédito de um punhado de amigos. Não pensaram na minha desesperada falta de tempo...Tive de abandonar com o dedo imperioso da profissão espetado nas costas."
Camilo de Araújo Correia

Beleza


Foto: josé alfredo almeida


“A beleza às vezes é um lugar onde o olhar já sabe aquilo que não quer esquecer”  

Ondjaki, Uma escuridão bonita. Estórias sem luz elétrica

Catedral do Bem

Quartel Delfim Ferreira

Dois artistas assinam o desenho e execução de tão desejado edifício: o mestre pedreiro Anastácio Inácio Teixeira, reguense e admirável executante, e o arquitecto Francisco Oliveira Ferreira (1884-1957), ligado à cidade por laços familiares mas também profissionais. À data com uma obra extensa, em particular na zona do Porto e Vila Nova de Gaia, Oliveira Ferreira oferece o projecto à Associação, conduzindo à construção daquele que se julga ser um dos primeiros quartéis do país desenhado por um arquitecto e por muitos considerado um dos mais belos de Portugal.
(....)
Peça integrante da vasta e variada obra de Oliveira Ferreira, que figura no panorama do norte de Portugal como emblemática de uma época e hoje classificada como valor de património local, o quartel Delfim Ferreira cativa a atenção de quem por ele passe, em particular pela singular beleza da sua fachada principal, embelezada com os granitos trabalhados à mão.

Pelo exterior o arquitecto, juntamente com o admirável trabalho do mestre pedreiro Anastácio Inácio Teixeira, recorre à sintaxe do classicismo para uma perfeita articulação do edifício com a cidade. Porém, sob um olhar mais atento, note-se a lenta emancipação dos padrões beauxartianos, substituindo-se o formulário academizante por um funcionalismo operante de que é exemplo o grande vão semicircular que, apesar de um tom monumental, permite, sobretudo, a abundante iluminação do salão nobre. Dentro desta lógica o interior não é menos surpreendente, concentrando-se o arquitecto na clarificação e reforço da dimensão utilitária e funcional desejada através de uma concepção espacial racionalista de apurada técnica construtiva.
Arq.ª Ana Isabel Ferreira Pinto

Paisagem


Foto: José Alfredo Almeida

"Terra que se erga, como a Régua, desde um vale até o topo dum monte, é, por benigna fatalidade, terra de rampas e socalcos.Que o fundo de cada calçada seja uma janela aberta sobre uma linda vista, e o eirado varanda, donde se goze um rico panorama - é o voto de quem é esteta."
          João de Araújo Correia in "Pátria Pequena"

Ver

Foto: josé alfredo almeida


"O que mais importa não é o novo que se vê, mas o que se vê de novo no que já tínhamos visto. "
Vergílio Ferreira

Café Pardal

Foto: josé alfredo almeida


Vejo uma cara nova no café.
Inquieta, apressada.
Espera quem? O quê?
– Ainda não pediu nada.

Olha o relógio, com frequência,
E a porta, no Verão, escancarada.
Quem, o quê, é motivo desta urgência?
– Ainda não pediu nada.

Encontro de negócios, importante?
Empréstimo vital de dinheiro? A mesada?
Ou a compra da droga, furtiva e aviltante?
– Ainda não pediu nada.

Mas o empregado vem: – «O que deseja?»
Subitamente surge à entrada
Uma mulher que o abraça e o beija.
– Saem sem pedir nada!

António Manuel Couto Viana

Vida por Vida




As minhas recordações da infância estão povoadas com os primeiros bombeiros que vi a combater um fogo que ameaçou destruir uma velha casa nas Caldas do Moledo, lugar onde nasci e dei os meus primeiros passos. Se não fossem esses corajosos bombeiros, as chamas teriam reduzido a cinzas a vida de uma família pobre e os seus míseros haveres. Nunca soube o nome dos bombeiros que apagaram esse fogo, mas eles ficaram-me retidos nas malhas da memória como heróis.
Mal sabia eu que, muitos anos depois deste fogo, as voltas do destino me pregavam uma partida e faziam-me ser um bombeiro sem farda nem capacete, pois que fui convidado para assumir a Direcção da Associação, isto é, tomar conta das contas, dos papéis, das mil e uma burocracias que não os podem ocupar para estarem sempre prontos a responder ao toque da sirene.
Tive fortes razões para recusar o convite, mas o apelo das minhas memórias de um fogo fizeram com que aceitasse, com honra, um cargo directivo para o qual não sabia se estava preparado, nem se teria competência para estar ao lado de homens que eu admirava e eram os meus heróis. O certo é que tive de aprender com os bombeiros no activo e, no meio de muitas tormentas, deixei-me ficar na companhia deles. Quando olho para o calendário do tempo, vejo que já passaram cerca de quinze anos a dirigir os nossos bombeiros. Não são muitos os anos a que me dedico com zelo à instituição se os comparar com a sua longevidade já mais que centenária. Confesso que me limitei a dar um pequeno e humilde contributo para a tornar melhor, como fizeram todos os meus antepassados. Aprendi com os bombeiros lições de sacrifício e solidariedade e actos de muita humanidade.
Por isso, muitas vezes me recordo de uns versos do Comandante Camilo Guedes Castelo Branco impressos numa fotografia eterna que me não deixa esquecer os meus bombeiros, heróis sem nome nem rosto que continuam a apagar o fogo da minha memória, lá nas ruínas do velho Moledo, cumprindo o espírito da sua missão: VIDA POR VIDA.
                                                                                                                                                                                    
José Alfredo Almeida

28 Novembro de 1880

Foto: josé alfredo almeida


“Devido à eficácia do seu comandante, Manuel Maria de Magalhães, e à grande actividade e amor de mais alguns sócios, do número dos quais se destacaram José Joaquim Pereira Soares dos Santos e Joaquim Sousa Pinto, esta associação progrediu e foi sem dúvida uma das primeiras do país.
          Por decreto de 9 de Maio de 1892 foi-lhe conferido o título de Rea.l" 

José Afonso de Oliveira Soares in "História da Vila e Concelho do Peso da Régua"

Carta de João de Araújo Correia





Ex.mo Senhor
Dr. José Lopes Vieira de Castro
Dig.mo Presidente da Associação dos
Bombeiros Voluntários do Peso da Régua


Ex.mo Senhor:

Respondo ao prezado ofício de V. Ex.ª datado de 22 do corrente.
Tanto V. Ex.ª como a Ex.ma Direcção a que preside consideram imprescindível a minha colaboração do boletim VIDA POR VIDA. Não estou de acordo com V. V.Ex.as neste particular, Não falta quem escreva no boletim VIDA POR VIDA para lhe manter a boa tradição de brilho e de valor.
Concordo com V. V. Ex. as em considerar que foram alheios à actual Direcção os motivos que me afastaram do boletim VIDA POR VIDA. Nestas condições, recusar-me a colaborar de novo seria demasiada impertinência e até grosseria. Sou incapaz de praticar esses delitos perante a boa vontade que V. V. Ex. as manifestam no sentido do meu regresso ao VIDA POR VIDA – órgão de uma associação digna do meu zelo e até do meu sacrifício.
De acordo com a minha saúde, que vai sendo pouca, e com o meu vagar, quase sempre reduzido a escassos minutos, colaborarei confiado nas atenções que mereçam as minhas atenções. Assim o espero de V. Exª e de quem superintenda na redacção do jornal.
É-me grato manifestar a V. Exª, nesta oportunidade, a minha consideração e respeitosa estima.
                                          
                                                                    A BEM DA HUMANIDADE


João de Araújo Correia


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Rio novo

Foto: josé alfredo almeida




"Quando as barragens vieram partir o Douro pela espinha, imobilizando-lhe as águas, João de Araújo Correia exprimiu o seu luto chamando-lhe Rio Morto. Eu próprio lhe chamei Rio Perdido. Não. O Douro está vivo e achado." 
Camilo de Araújo Correia in  crónica "Rio Velho, Rio Novo"

Origens

Foto: josé alfredo almeida



Bendita sejas tu, ó sempiterna
Bem-amada paisagem!Pátrio ninho!
......................................................
Bendita sejas tu, por todo o sempre,
E o teu ventre, que um novo Deus encerra,
Ó mística paisagem, onde o céu
Se casa intimamente com a terra

Teixeira de Pascoaes 

Diante do Fogo Lareiro

José Braz Fernandes- O Primeiro Presidente da Direcção  dos Bombeiros da Régua

Vão muito quentes e muito secos estes primeiros dias de Setembro e lavraram incêndios florestais de norte a sul do país, com centenas e centenas de bombeiros a fazer-lhes frente, sem descanso e quase exaustos. Quem mo diz é a Televisão, que é incendiária de seu natural. Diz-mo a toda a hora, insistentemente, como a alimentar e a estimular a psicopatia dos pirómanos, assim refeitos e deliciados diante de muito espectáculo de fogo e labaredas.
Por momentos, estou sentado numa sala da minha casa paterna e tenho diante de mim uma rica lareira de aquecimento, uma lareira que por esta altura do ano se mantém varrida e extinta, como que em natural hibernação. Mas, nos dias mais frios e mais invernosos, a quentura da lareira não deixa de ser germe de convívio, de aconchego e até de boas memórias. Já o disse o saudoso médico e escritor João de Araújo Correia no prefácio do livro de contos Cinza do Lar. Disse esta bela frase: “ Do monte de cinzas, quando se esborralha, surgem centelhas vivas que a imaginação exalça e multiplica.”
Por isso é que eu, nestes dias quentes de Estio, quero fazer de conta. Fazer de conta que esta lareira que tenho aqui em hibernação, diante de mim, é uma lareira de boa quentura e aconchego com um borralho de cinzas a estimular-me a imaginação e os afectos. Já comecei a remexer as cinzas do borralho e já desprendi centelhas e mais centelhas, algumas de uma vivacidade cintilante e outras já o seu tanto amortiçadas.
Uma das mais vivas até me pareceu figurar o meu bisavô materno José Braz Fernandes que está ali em fotografia antiga pendurada na parede mesmo ao lado da lareira. Tem umas barbas venerandas, quase patriarcais, e um olhar meio perdido nos longes do século passado. E uma centelha mais brincalhona leva-me a pensar que eu, um bisneto ainda miúdo, estou sentado nos seus joelhos, a puxar-lhes as barbas, como que a divertir a tenrura dos meus anos.
Não conheci o meu bisavô mas dizem-me que ele foi o primeiro presidente dos nossos bombeiros e eu digo-lhe, à puridade, que quase vi nascer o actual edifício do quartel. Viu-o ainda no nascedoiro mas já uma sólida estrutura de betão, vigamentos, colunas, degraus e patamares sem reboco nem caiação, ainda sem grande serventia mas já a simular o que viria a ser depois, um belo e invejável edifício no tecido urbano da cidade. A frontaria é, por si só, uma expressiva legenda de vida por vida, digamos um brasão a distinguir qualquer soldado da paz. Uma frontaria de granito ricamente aparelhado, de mais a mais com a arte do bom cinzel. São todos os pormenores, todos os símbolos e alegorias, toda uma fachada a poder olhar, com olhos envaidecidos, o alto e incaracterístico prédio que lhe puseram defronte, como um intruso, a tolher a largueza dos horizontes.
Valha-nos que uma centelha vivaça vem agora a terreiro a rememorar a fanfarra dos bombeiros. É a refinada cadência das caixas, cadência batida e rebatida, é o som mais alto, mais gordo e estrondeado dos bombos, é o sopro aberto, metálico e vibrante dos clarins, toda uma explosão de sonoridades, de entusiasmo e de festa, sempre desdobrada em ecos repetidos.
Uma centelha também vivaça vem dizer-me que, na minha condição de médico, fui responsável pelo serviço de urgência do nosso hospital, semana após semana. Nessa conformidade, fui tendo sempre um convívio estreito, franco e amistoso com os nossos bombeiros. Com aviso da sirene ambulante ou mesmo sem aviso, os bombeiros traziam-me à urgência os casos mais variados, fosse um corpo estropiado, um coração desfalecido, uns copos mal bebidos, uma mulher de mau parir…às vezes umas sacholadas de instintiva ruindade como se a justiça popular, nem sempre aquietada, fosse o melhor modo de dirimir os conflitos, no terreiro das más consciências.
Os bombeiros traziam-me os  “casos” e havia sempre um cumprimento ou um gesto de mútuo respeito e compreensão como se cada um de nós tivesse uma missão a cumprir, nos caminhos da solidariedade.
Do fogo quase extinto ainda surgiu uma centelha de breve cintilação a relembrar-me o incêndio que vi daqui de Remostias e da minha casa paterna nos altinhos do Peso. Foi mesmo no enfiamento dos meus horizontes e soube depois que tudo tinha começado no fogo brando duma lareira de pobres, uma daquelas lareiras onde se aquecem os potes do caldo e das batatas e dão até para aconchegar o gato à mornidão das cinzas.
Já não há nenhum borralho na minha lareira imaginada e só um ténue clarão, talvez um fogo-fátuo parece desprender-se do eterno descanso do meu bisavô.

Manuel Braz de Magalhães

PS- Texto escrito em 4 de Setembro no português da minha escola e do qual não abdico.

Memórias Vivas




Nota de apresentação

                                  "A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente"

                                     Albert Camus

Como presidente da Direcção da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários do Peso da Régua há mais de quinze anos e como principal responsável pela organização e edição desta antologia, compete-me a tarefa de a apresentar aos leitores. Quero dizer-vos que é um projecto pessoal que assenta numa ideia muito simples e numa grande paixão por poder mostrar o passado de uma instituição que me diz muito, assim como aos reguenses e, de um modo geral, a quem admira os nossos bombeiros voluntários.
A nossa ideia foi a de convidar para escrever sobre os bombeiros da Régua pessoas que, por uma ou outra razão, nos pudessem deixar o seu testemunho para uma memória futura, a das gerações vindouras. Pensávamos que não devíamos fazer uma viagem ao passado, às nossas raízes históricas, ao dia em que tudo começou - 28 de Novembro de 1880 -, mesmo que fosse importante revisitar o espírito dos nossos fundadores e antepassados, mas que devíamos deixar uma marca visível no tempo presente de uma instituição humanitária que nasceu para proteger vidas e bens e que, ao longo dos anos, foi o espelho de uma sociedade civil que ali deu vida a novos valores solidários e humanitários, afirmou a diferença nos princípios e crenças no respeito pelos mais fracos e desfavorecidos e estimulou o desenvolvimento cultural, ao garantir a abertura da primeira biblioteca pública e ao promover espectáculos  recreativos e musicais, como peças de teatro amador e o glamoroso Baile das Vindimas.
Mais importante do que olhar para o passado dos bombeiros da Régua, é acreditar na sua  capacidade de construir futuro.
Convidámos para colaborar nesta antologia vultos da cultura e do pensamento actuais, escritores, jornalistas, dirigentes de órgãos ligados aos bombeiros, simpatizantes do ideal humanitário e testemunhas de momentos marcantes da vida desta instituição. Cada um escolheu um tema que mais o relacionava com o mundo dos bombeiros, mesmo que alguns, até esse momento, não conhecessem o que estava para lá dos portões de entrada do nosso majestoso Quartel. Convidámos também alguns antigos dirigentes que poderiam fazer um retrato do que foi o seu tempo. Apenas nos faltaram depoimentos de soldados da paz de outrora e de hoje, pois nenhum teve vontade de desvendar os segredos dos fogos em que são sempre heróis anónimos. Mesmo assim, daqui resultou uma diversidade de perspectivas e testemunhos que contribuem para a afirmação, o reconhecimento e a maior notoriedade de uma Associação mais que centenária, bem como para sublinhar a excelência da missão dos bombeiros.
Por isso, a todos os autores que tornaram possível esta inédita antologia - que teve como simples critério a sua apresentação por ordem alfabética -, temos de lhes agradecer pela sua disponibilidade para eternizar em palavras e memórias a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua e os seus Soldados da Paz, aqueles que conseguem   dar  vida às vidas.

Decidimos que devíamos também integrar nesta antologia os autores que deixaram escritas matérias muito interessantes para entender a história e o passado dos bombeiros da Régua, mas que se encontram dispersas nos jornais locais, como é o caso dos médicos e escritores João de Araújo Correia e Camilo de Araújo Correia, ambos ligados umbilicalmente aos bombeiros da Régua, do médico José António Pereira de Sousa e do Chefe António Guedes, o único bombeiro que confiou ao papel memórias suas. Achámos ainda oportuno divulgar uma poesia do Comandante Manuel Maria de Magalhães (1880-1896) que, sendo o primeiro a comandar os bombeiros da Régua revelou, desde muito novo, os seus dotes para a escrita.
Embora de José Afonso Soares, historiador que sucedeu a Manuel Maria de Magalhães no comando dos bombeiros da Régua (1896-1927), não conheçamos nenhum artigo jornalístico sobre a nossa instituição, gostaríamos de lembrar este apontamento inscrito na sua História da Vila e Concelho do Peso da Régua (1936-1938): “Devido à eficácia do seu comandante, Manuel Maria de Magalhães, e à grande actividade e amor de mais alguns sócios, do número dos quais se destacaram José Joaquim Pereira Soares dos Santos e Joaquim Sousa Pinto, esta associação progrediu e foi sem dúvida uma das primeiras do país.”
Foi deste mesmo espírito que nasceu a nossa maior intenção, elevar o nome da nossa Associação e fazê-la progredir na alvorada deste séc. XXI. Não temos a certeza de o termos conseguido, sendo certo que o julgamento que de nós fizerem dependerá sempre das nossas acções enquanto sujeitos da nossa própria história colectiva.
Esperamos que cada um dos magníficos textos desta antologia ajude o leitor a fazer o seu juízo e a conhecer melhor uma Associação e um Corpo de Bombeiros Voluntários com que a comunidade reguense pode contar há 133 anos “A bem da humanidade”.

José Alfredo Almeida
28 de Novembro de 2013

Serenidade Outonal

Foto: josé alfredo almeida



"Não há silêncio mais profundo do que o da água"

José Saramago

Luz


Foto: josé alfredo almeida

"Nós durienses, depois de inventarmos o melhor vinho do mundo, que nem sempre vendemos, caímos na sonolência que faz dó.Falta-nos o caco para o invento supremo, que são, pelo Outono, as vinhas coloridas. Falta-nos a voz para  apregoar: vinde ver!Vinde ver!"

João de Araújo Correia in "Pátria Pequena"

Mas que casas!

Foto: josé alfredo almeida


" Numa colina, como que nasceu, de um dia para o outro, uma série de casas para abrigo de quem não cabe na vila.Mas que casas!Dizem que são bonitas e cómodas por dentro.Por fora, são um horror. Não há fealdade com que se comparem.O arquitecto que cultiva a fealdade, caprichou em as fazer tão feias, que metem medo.Quando se avistam, do alto ou do fundo da colina, são uma espécie de Parcas incumbidas de afugentar o mundo.Todas cor de terra, como quem diz de retrato mal pintado, uniram-se ombro a ombro para ter mais força."

João de Araújo Correia in "Pátria Pequena"

Régua antiga-1



"A Régua, donde quer que se aviste, é uma jóia.Mas o que lhe dá realce é o estojo, isto é, a concha em que assenta, a bacia da Régua, com as suas montanhas, as suas colinas e o seu rio.Tocada de perto, sem escrínio à vista, desfaz-se-lhe o encanto.É uma jóia de chumbo, ou, quanto muito, de plaqué."

João de Araújo Correia in "Pátria Pequena" 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Caldas do Moledo, no presente

Foto: josé alfredo almeida


"Vivemos rodeados de vozes. E não são apenas vozes de pessoas.Tudo tem voz.O vento, a chuva, as folhas das árvores; uma cidade, uma rua, uma casa.As próprias recordações têm uma voz. São companhias, são laços fortes com os encontros que constroem cenários da nossa vida."



Mónica Baldaque in "A folha do limoeiro"

Caldas do Moledo, 1909



Antão era pastor… 

A minha aldeia é um grande Coração;
E nela cabe toda a Irmandade:
De alvas Auroras Anunciação
E de Bemvidas da Felicidade!
E de suavíssimas Brancas d`Assunção
E  santas Isabeis da Piedade…
Antónios e Josés da Encarnação,
E tristes Manoeis da Soledade!
E Marias dos Anjos e da Luz,
E virgens Madalenas de Jesus!...
-Nomes tão lindos quem os escolheu?...
          - Eu sou Antão: -Fui santo e fui pastor,
           Voltei de novo, ao mando do Senhor,
            Tanger as vossas almas para o Céu!

  Caldas do Môledo,  1920-1923
  Antão Moraes Gomes in “Antão era pastor..."

Acordar cedo

Foto: josé alfredo almeida


Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer... 
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas. 
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre -
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.  


Albero Caeiro

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Um pouco mais de azul

Foto: josé  alfredo almeida

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém… 
Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido… 
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão! 
De tudo houve um começo … e tudo errou…
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou… 
Momentos de alma que,desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei… 
Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios… 
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi… 
Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
    
Mário de Sá-Carneiro

Entardecer

Foto: josé alfredo Almeida

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...  
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...  
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri  
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...  

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

Privilégios


Foto: josé alfredo almeida
 

 São 7.00 horas da manhã e hoje quase acordei aqui neste cenário de luz:

"A Régua
assemelha-se
a um pensamento
com sucessivas ideias
prestes a entrarem
nos lábios
do rio" 
António Cabral 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Cidadania




São tantas as páginas de João de Araújo Correia em louvor dos bombeiros da sua terra.
Só quem conhece a história dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua - o que acreditamos ser assunto desconhecido a muitas pessoas- está habilitado a perceber que as suas palavras não foram meramente laudatórias.
Elas espelham a grandeza de uma intuição que, nascida da vontade popular, tem mantido há mais de cem anos um trabalho permanente ao serviço da sociedade reguense.
Porque os Bombeiros merecem admiração e respeito de cada um de nós, temos de repetir o que deles afirmou o escritor João de Araújo Correia: «Um homem de luvas brancas, com machado de prata às ordens e a cabeça adornada por um elmo de ouro, não é um homem. É um semideus.»

José Alfredo Almeida

domingo, 17 de novembro de 2013

Caldas do Moledo, 1963





Esta fotografia faz e refaz as minhas primeiras (deveria dizer pequenas) memórias, habita um lugar desconhecido,  mas que faz parte das minhas origens, é  por onde passa o meu   rio que atravessa o leito  das minhas raízes. 
Nasci e aqui aqui vivi uma infância e uma adolescência que foi feliz. 
Olhando para a criança que está  sentado no carinho daquela fotografia, onde passou o tempo, lembro-me que o escreveu José Saramago: "Deixa-te levar pela criança que foste".

É isso que hoje faço:  regresso   às   minhas origens, retorno àquele lugar que faz parte do meu mapa sentimental para refazer, outra vez,  a minha vida. 



José Alfredo Almeida

sábado, 9 de novembro de 2013

Da minha janela

Foto: josé alfredo almeida


          Quando olho o nosso mundo da minha janela surge-me de imediato à cabeça esta frase de Paul Auster: "Diz-se que é preciso viajar para ver o mundo. Por vezes, penso que, se estiveres quieto num único sítio e com os olhos bem abertos, verás tudo o que podes controlar."



             José Alfredo Almeida

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

As nossas raízes





"A minha Pátria Pequena é a vila e concelho do Peso da Régua.Aqui nasci, aqui vivo e aqui morrerei sem espírito provinciano.Sinto-me livre de semelhante espírito, que até nas cidades é empecilho do homem."

 João de Araújo Correia, in Pátria Pequena