quarta-feira, 30 de abril de 2014

Entre o céu e a terra

Foto: josé alfredo almeida


Sim, olhar a paisagem...
Olhá-la como um bicho
Ou como um lago
Olhá-la neste vago
Sentimento
De pasmo e transparência.
Olhá-la na decadência
Original,
com olhos de inocência
E de cristal.

Miguel Torga

Sina

Foto: josé alfredo almeida

  O dia amanheceu feliz
  Queria subir aos montes,
  Queria beber nas fontes,
  Queria perder-se nos largos horizontes...
  Mas a vida não quis.

  Miguel Torga

A toutinegra do Passal

Desenho de Ana Margarida Almeida



"No exíguo lugarejo de Cadavais, cabeça e coração da enorme freguesia de Moreiras, morava um velho abade de oitenta primaveras.
Calvo, gorducho, um pouco atarracado, já quase media as passadas que dava e assobiava as palavras que dizia.
A casa do velhinho, escura como uma rocha e forte como um castelo, confinava do poente com a negra igreja românica que tanto honrava a freguesia, e dormia em cada noite enamorada pelas horas que desciam lá de cima, da torre do relógio.
À beira do cemitério, como sentinela fria e vigilante, sempre de pé em guarita natural, um brioso e bondoso cipreste abrigava generoso e feliz todos os pássaros que dele se aproximavam para dormir, casar e fazer ninho.
(...)
Meses depois, ao cair da tarde, os sinos da igreja tocaram a defunto...e as vozes repetiram aqui e além, correndo toda a aldeia:
-Morreu o senhor abade! Morreu o senhor abade!
No calor macio e frágil de um sol que se ia embora, as andorinhas beijavam-se abrigadas pelas abas dos telhados e os pardais espanejavam-se nos ramos das árvores depois do banho doce nas águas mornas no riacho, mas os cães do pároco, dando conta de tudo, uivavam pesarosos e nervosos como os lobos.
Quando o funeral levantou, e a urna saiu de casa, a toutinegra e o marido gritavam no cipreste como se lhes tivesse morrido o pai, e quando os paroquianos deixaram o cemitério e voltaram para as suas casas, um e outro esvoaçaram na direcção da sepultura e aí ficaram, tristes e em silêncio, sentados na terra nua, por longo tempo, a agradecer ao benfeitor da família e ao salvador dos filhos."

Joaquim Correia Duarte

Passar a ponte-1

Foto: Miguel Guedes

Passar a ponte-2

Foto: josé alfredo almeida

(Re)Conhecer a Régua-67



terça-feira, 29 de abril de 2014

Crónica do Douro




"Os olhos de um homem das lezírias habituados a varrer distâncias, mal aqui chegam parecem achar pequenas as dimensões que lhes deixam para viver. Fica-se com a vaga noção de que se abrem os braços quando se viaja num rabelo, em baixo, na vertigem das descidas dos pontos ou nas penosas ascenções por fragas sem conta, as mãos serão capazes de tocar nos limites do horizonte, tacteando as vertentes das montanhas que sobre o rio se querem despenhar.
Depois, a pouco e pouco, percebe-se que para além daqueles montes, há outros e outros, adivinhados de vez em quando no acastelamento dos cumes. E ao chegar o instante do pormenor, aqui no Douro, o homem das lezírias repara deslumbrado que cada monte é uma medida larga de horizonte, se os olhos  se entretêm a desfiar o emaranhado dos socalcos e a concebê-los  num plano, bardo a bardo, valeira a valeira, e criado depois disso todo o esforço necessário para  vencer aquele monte a pólvora e a marra, até lhe dar a terra onde as videiras se contorcem em espasmos de folhagem e cachos, tão ricos de doçura e cor que os durienses dizem darem os seus bagos o melhor vinho do mundo. Talvez assim seja. E se a dúvida pode surgir perante a afirmação, ela não ficará se se disser que nenhum outro vinho exige tanto do homem para chegar ao cálice, que nenhum outro é feito a poder de maior bravura e de tais sacrifícios.
O adagiário da região exprimiu essa certeza que "ainda que entres na vinha e soltes o gabão, se não trabalhares, não te darão pão". E é nisto que o homem das lezírias se encontra com o duriense; é por isso, certamente, que o Douro parece a minha segunda pátria e nela me vou reconhecendo quanto mais o seu contacto me toca.
Já os olhos não acham curtas as distâncias dos limites, porque cada monte é um santuário de trabalho humano, e nunca pedaço de natureza me entusiasmou mais do que a peça mais insignificante em tamanho feita pela mão do homem - seja de um boneco dos barros de Barcelos ou Estremoz, uma foice ou um saleiro de cortiça. E  então se a tarefa exigida comporta o heroísmo do cavador ou do valador do Ribatejo, dobro-me maravilhado de agradecimento por pertencer a esta espécie que se tem dado tiranos, ociosos e ladrões de esforço alheio, também pode oferecer homens da tempera daqueles, um conquistando terras às fragas, outro ganhando terras ao Tejo - um e outro justificando uma oração, como exemplos vivos de todo o conjunto dos seus obreiros ignorados.
E as duas regiões tão diferentes à primeira vista, são irmãs como nenhumas outras, feitas ambas pela mão do homem, argamassadas em duas nas maiores tragédias nacionais - uma pelas suas cheias, outra pelas suas epidemias que atacam a videira, como essa da filoxera que deixou o Douro varado de angústia,  e mesmo assim o não venceu,  embora em muitas montanhas os "mortórios" recordem hoje o que teria sido essa catástrofe que destruiu todas as videiras, calcinando-as, num país em que um cacho de uvas vale um mundo de promessas.
Depois ainda pelos semelhantes contrastes sociais, tão vivos no Douro como no Ribatejo - ao lado do palácio senhorial a choupana humilde.
E se uma tem as Portas do Sol, em Santarém, a Senhora  do Pranto ou o Monte Gordo, a outra, com mirantes em cada cume, tem horizontes mais amplos ainda, no alto da Rede e na bacia maravilhosa de cores que circunda a Régua, para o baixo Corgo, e lá para riba o Ermo e o Alto das Monteiras, ali perto do Pinhão que mais parece um cadinho onde se caldeiam gentes. No Ermo, em S. Salvador do Mundo, mesmo por cima do Cachão da Valeira que antes de D. Maria, foi último porto de rabelos e hoje se assemelha a uma catedral de nave única onde o Douro increpa e os " marinheiros" se arrepiam sempre de emoção, em S. Salvador do Mundo, desvenda-se a transição das terras de vinho para as de centeio e gados, aqui baralhadas ainda, já com raros socalcos de videiras, só vivas à mão do rio, porque mais para os cumes só os cereais e as oliveiras acham pé.
Mais escassos os xistos, vencedores quase absolutos os granitos duros, com montanhas despovoadas de gentes a caminho de Bragança ou de Mirandela. E o Douro em baixo, parece um titã adormecido, em curvas mansas, porque insignificante do alto do Ermo também parece o comboio que abre caminho entre a Alegria e a Ferradosa, e ele só passa por um longo túnel aberto na rocha, onde muitos homens deixaram a vida e milhares de outros rasgaram o peito.
O Alto Douro das vinhas está, porém, no Alto das Monteiras - quase seis quilómetros a subir, de junto da ponte do Pinhão,sempre entre  vinhas, na companhia de carvalhos e amendoeiras, pinheiros exóticos e eucaliptos, figueiras e alguns sobreiros descarnados.
A paisagem desenrola-se como num filme em que o espectador se movesse, e até ao alto, onde se acoitam javalis, sempre em perigos e vertigens, o país do vinho ali se oferece, tão exuberante de formas como franco de hospitalidade. E os olhos ficam tontos de tanta luz, de tão vasto horizonte e de tamanho poder de realização humana. Porque ali nada escapou à mão deste bicho insatisfeito que veio das cavernas, já tocou no céu, foi ao fundo dos mares e há-de chegar ao fundo de si mesmo para fazer uma vida que mereça ser vivida.
Busquem-se pormenores nesta feira de maravilhas, e se primeiro nos solicita pelo contraste, Valença a um lado, muito arriba também, mas mais baixa que as asas das aves e os socalcos, Favaios e Govães, Casal de Loivos e São-Fins, sempre à volta, de vertigem em vertigem, até à picada do rio onde os pontos farfalham espumas, ruídos e perigos, onde o Pinhão avulta numa simples figura geométrica pintada a várias cores, logo depois se avolumam e cobrem tudo, as varetas infinitas destes leques surpreendentes e gigantes que os geios goivam nas lombas e nos seios agressivos das montanhas, brandos umas vezes, em proas de barcos verdes, depois em promontórios arriscados e suspensões de ravinas, para a espaços se abrirem em coxins atapetados de mansas encostas, onde sempre nos sentimos insignificantes, e cada vez mais, a quanto mais alto subimos. Em montes mais crescidos, no nascente mergulhado ainda na sombra, por esta manhã de Agosto, o verde-escuro de pinheirais, logo em contraste com o cinzento  metálico dos olivedos, de que o duriense só compreendeu a virtude, depois do mal terrível da filoxera que neste pedaço se sente ainda, no castanho brando dos socalcos vazios, como ventres infecundos, onde tudo se mirrou talvez por muitos anos ainda. Mas o verde dos bardos, agora a chegarem-se  ao lagar, como sentindo já as ânsias das raparigas e dos rapazes das rogas que hão-de chegar cantando e dançando para atenuarem os cansaços das jornadas, esse verde predomina por todas as ondulações que se desdobram para onde a vista tropeça. Para o lado do nascente e sul o vale do rio Torto, guarida de vinhos famosos, tão célebres como os do Roncão que ficam para o norte, numa curva do rio que daqui parecia estagnado, se não fora o ponto da Roêda, com franjas brancas e sons lamentosos de um  carpir que só as espadelas dos barcos sabe imitar, ciciando desculpas junto da quinta do mesmo nome e que mais parece um museu do esforço do homem duriense. Como se trabalhasse a terra com goiva, os socalcos ou geios estão medidos numa tal harmonia de distâncias que talvez uma obra de arte não soubesse imitar. Já o disse uma vez e julgo merecer repeti-lo - que esta obra vale quantos monumentos se hão criado na terra."

Alves Redol, in revista Vertice, de Outubro de 1947

Só um lugar

Foto: josé alfredo almeida


Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade

O meu Moledo-40

Foto: josé alfredo almeida

À sombra

Foto: josé alfredo almeida

(Re)Conhecer a Régua-66

Foto:Geoff  Corner

   Régua, 1973

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Ainda o 41º Congresso dos Bombeiros na Régua

Cdtes Álvaro Ribeiro e António Araújo



Por desafio do meu prezado amigo Dr. José Alfredo Almeida, Presidente da Direção da Associação de Bombeiros Voluntários de Peso da Régua, pretendo descrever o acontecimento na perspetiva da organização do desfile, que foi marcante para todos, em especial para mim, que vivi a iniciativa desde o momento inicial até ao seu encerramento, não escondendo algum sentimento que é resultado da minha grande paixão pelos Bombeiros há mais de 30 anos. 
As reuniões preparatórias do Congresso ditavam, por parte da Liga, um Congresso totalmente virado para as jornadas administrativas, estando a componente eleitoral a dominar todos os assuntos.
Do nosso contributo local para colocar em marcha a máquina do Congresso renasceu, à imagem mitológica da Fénix, a tradição do desfile. Congresso sem desfile não é congresso de Bombeiros e como tal avançou para a Liga a proposta da realização do sugerido desfile. O Conselho Executivo da Liga dos Bombeiros Portugueses reuniu e aprovou a proposta, que foi disseminada por todas as Federações Distritais no sentido de avaliar as presenças de pessoal, já que o desfile de veículos era circunscrito ao distrito de Vila Real para evitar despesas.
Algum tempo depois e já com a máquina em movimento, o núcleo organizador constituído pelo Comandante Araújo, que representava a Liga, os Bombeiros do Peso da Régua através do seu Comandante António Fonseca, e a Federação dos Bombeiros de Vila Real, representada na sua componente operacional por mim próprio, tivemos a informação da Liga de que as inscrições eram poucas e que, na sua maioria, constavam apenas de estandartes das Associações Humanitárias de Bombeiros Voluntários e suas Federações. Este facto não constituiu desalento, e a participação ficou somente com os meios apeados e motorizados do Distrito de Vila Real.
Iniciou-se, assim, uma nova etapa da organização do desfile. Houve sempre ânimo a nível local para dar seguimento à ideia inicial de manter o desfile no encerramento do Congresso como uma tradição que distinguia os Bombeiros de todas as organizações por mais intervenientes que fossem na sociedade. A importância dos Bombeiros em desfile e respectivas viaturas está espelhada, no encerramento do Congresso realizado na cidade de Peso da Régua em 1980, pela presença do Presidente da República General Ramalho Eanes.
Das nossas conversas surgiu então a ideia de inovar esta exposição pública de meios humanos e materiais que caracterizam a maior força de Socorro em Portugal apoiada numa filosofia de voluntariado. A proposta de desfile temático vingou e avançou-se de imediato para a definição dos temas. Surgem os incêndios urbanos, os incêndios florestais, o Salvamento e Desencarceramento, o Socorro Pré-hospitalar, as Operações Aquáticas e os Infantes e Cadetes. Estavam representadas as potencialidades dos Bombeiros do Distrito de Vila Real. Cada tema era figurado pelos meios humanos com o respetivo equipamento de proteção individual e os meios motorizados adequados. 
A aceitação desta ideia na reunião plenária com todos os Comandantes dos Corpos de Bombeiros do Distrito possibilitou, também, uma representação de bombeiros com uniforme tradicional e o capacete metálico.
A nomeação de responsáveis pelos temas foi feita e marcaram-se os dias para as instruções, que, devido ao elevado número de incêndios florestais, foram alteradas para quase em cima do acontecimento.
As obras nas ruas do centro da cidade da Régua obrigaram a ajustamentos no local da concentração da formatura e mesmo no percurso desejado. Contudo, não alterou a ideia inicial que era atrair público, mostrando à nossa população os domínios específicos dos Bombeiros do Distrito e a sua capacidade organizativa de eventos com alguma dimensão. Não podemos ignorar o olhar atento de muitos amantes desta atividade altruísta que, através de uma visão laser, estavam a tentar detetar as anomalias de uma ideia nova que marcava a diferença no espaço tradicional de encerramento dos Congressos.
Não podemos deixar de referir as condições meteorológicas, que estiveram ao melhor nível para o público e para os bombeiros que garbosamente desfilaram ao toque da fanfarra dos Bombeiros de Peso da Régua. 
A Direção dos Bombeiros da Régua, imbuída num espírito de missão, e as instituições externas aos Bombeiros como a Câmara Municipal de Peso da Régua, que foi inexcedível, contribuíram positivamente para o sucesso deste evento.
No final do desfile, e depois de alguns dos meus amigos Bombeiros de vários pontos do País pedirem a reportagem vídeo, tive de imediato uma sensação de compensação pelo trabalho desenvolvido e pela aposta ganha no desafio de organizar o desfile temático.
Não poderei ocultar a felicidade que partilhei com outros elementos integrados na organização por esta iniciativa ter decorrido com um elevado grau de profissionalismo. 
A finalizar, o lanche-convívio realizado no Mercado Municipal foi um momento agradável de convivência entre todos os participantes e outros elementos que estiveram envolvidos na organização. O recém-eleito Presidente do Conselho Executivo da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Soares, esteve também presente, cumprimentando os Bombeiros e os Dirigentes.



Comandante Álvaro Ribeiro

Sempre assim

Foto: josé alfredo almeida


Sou como um rio
Que vive só para ti
Correndo só para te ver
Sou como um rio,
Que acaba ao pé de ti
Foi sempre assim
Gostar de ti

Delfins

Navegar é preciso...

Foto: josé alfredo almeida


O barco, meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração, o porto, não

Navegar é preciso, viver não é preciso
Navegar é preciso, viver não é preciso


Caetano Veloso

(Re)Conhecer a Régua-65


Foto: Bryan Denton

   Régua, 1975

O meu Moledo-39





Em quase nenhum mapa está a minha aldeia
São apenas umas quantas ruas
uma paisagem de casas
com uma praça no meio
Poucos sabem dela:
nenhum poeta a cantou
Longe de tudo
é um lugarejo 
um sítio perdido
com pássaros e ribeiros
Quando fui criança
foi capital do mundo
centro do universo
porto seguro


Robinson Quintero Ossa

domingo, 27 de abril de 2014

Viver a verdadeira vida

Foto: josé alfrdo almeida


Não te sei dizer mais.
Depois de tantos versos,
Que te baste o silêncio
Dum poeta ardente,
Que sempre, naturalmente,
Foi além das palavras
Do amor, amando.
Que, em cada beijo,
Selava os lábios que o nomeavam.
Que aprendeu, a sofrer,
Que tudo acontecia
No acontecer.
Que, até nas horas de evasão, sabia
Que a verdadeira vida vive-se a viver.


Miguel Torga

(Re)Conhecer a Régua-64

Foto: Noel Magalhães

A agave só floresce uma vez





" Querida Irene,

As coisas por aqui continuam bem. A vinha este ano está fabulosa. Espero que, se tudo correr bem no Verão, sem excesso de calor, tenhamos uma magnifica colheita.
Mas algo aconteceu de estranho: uma das agaves plantadas em 1996 floresceu nesta Primavera. Tem sete anos e lançou uma florescência de uns dez metros de altura. Sinceramente, o que encontrei na literatura aponta para que, nas regiões mais quentes e secas, a primeira e única floração surja quando têm dez anos: depois secam e morrem! Mas nunca tão cedo.

(...)

Achei bizarro. E, apesar do meu feroz racionalismo, fui possuído por um terrível pressentimento. Como já tinha tido pensamentos mágicos no Algarve quando as redescobri e a Graça Murta me sensibilizou para os mistérios da agave. Pressentia então que o meu tempo teria acabado. Valeu-me uma motivação forte: o projecto da quinta ter-me-á salvo. Agora, a florescência da agave será o sinal de de que terminei um novo, ou último ciclo, da minha vida?"

Eurico Figueiredo

Achado Arqueológico


Foto: josé alfredo almeida




A única estrada para lá
é uma estrada romana…

Lá vive gente
- não sei se fala latim
mas é de crer que sim.

Joaquim Namorado

sábado, 26 de abril de 2014

Jorge Almeida

Carlos  Zorrinho, Artur Vaz e Jorge Almeida  ( ao lado esquerdo)




Para um amigo tenho sempre um relógio 
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa


O  nosso amigo  Jorge Almeida  deixou-nos hoje, dia 26 de Abril. Depois de uma dura luta de vários anos, a doença acabou por derrubá-lo. E ficámos todos mais pobres com a sua ausência. A cidade, o concelho da Régua e a região duriense perdem um homem culto, inteligente e sensível ao bem comum e à causa pública. Ele que  foi  médico, autarca e deputado, dedicou-se com grande paixão à agricultura,  foi  um lavrador do Douro que produziu vinhos bons do Douro e Porto. Por isso, também  uma grande parte da sua vida foi dedicada a estudar e pensar  em boas soluções para  as  questões do Douro,  preocupando-se com os problemas da Região Demarcada do Douro, dos produtores mais desprotegidos -os pequenos vitinicultores -  que tiram o seu sustento familiar do trabalho da vinha e da venda dos vinhos mas que, ano após ano, perdem  muito do rendimento para as grandes firmas exportadores e, na ausência de uma Casa Douro forte que os defenda, estão à beira da ruína e da miséria. Ele  foi um político que se  preocupou com o nosso futuro de um povo, de homens simples, com a  sua qualidade de vida, com a genuinidade e qualidade dos vinhos e com a defesa e valorização da nossa grandiosa paisagem vinhateira humanizada, hoje classificada como Património da Humanidade, como uma garantia para um desenvolvimento mais sustentável e harmonioso de toda a nossa  região duriense. 
Era uma pessoa marcante, tanto pela sua figura como pelas suas convicções, muitas delas expressas  em  em texto em crónicas,   jornais e revistas.Publicou livros sobre as  boas leis que  o Douro contemporâneo devia ter. Nós, que o conhecíamos, sabíamos que tinha uma vasta cultura  e era  um apreciador da história e da memória colectiva, pelo que qualquer conversa com ele se tornava uma animada tertúlia, onde  os temas  fluíam com naturalidade.
O Jorge Almeida é  um reguense de gema: nasceu, viveu, trabalhou e aqui morreu, pelo que dificilmente será esquecido por todos os que com ele privaram e o admiraram pelos seus dons e qualidades humanas, morais e cívicas.
Como amigo, companheiro de lutas e ideais, o Jorge Almeida  ficará para sempre na nossa memória como alguém que viveu intensamente cada dia da sua vida. Assim, hoje não faz sentido lembrar a sua perda. Devemos é lembrar a sua obra e, sobretudo, o seu exemplo de cidadania activa, que lega a todos os verdadeiros reguenses, como  foi o Jorge Almeida .


                                                                                                                               Até sempre, Jorge



A meu pedido, o Jorge Almeida escreveu para o nosso livro Memórias Vivas  um  interessante  texto  em volta  das suas  memórias sobre os Bombeiros da Régua e, em especial, sobre  a sua  Biblioteca Maximiano Lemos, que ele ajudou a enriquecer com a entrega de um importante e raro espólio de cerca de 800 livros pertencentes ao seu tio José Arnaldo Monteiro:  
                                                                                             
“Há fogo! Há fogo!”, gritava a garotada da minha rua. A sirene era inconfundível, a frequência de sons agudos e graves não enganava. Em correria deixávamos o jogo da bola ou da carica para acorrer ao quartel.
Já lá estavam os mais afoitos e os mais próximos. “É no Corgo, é no Corgo”, dizia uma voz esganiçada. E os bombeiros não faltavam à chamada. Conforme estavam em casa, no trabalho ou no lazer, assim vinham aqueles nossos heróis. De automóvel, de bicicleta, de motorizada, a pé. O Manuel, o Silva, o Figueiredo, o João e tantos, tantos outros. E o Chefe Claudino, e mais tarde o Comandante Cardoso… que organização, que autoridade!
Era um gosto ver sair o carro de nevoeiro a toda a velocidade a caminho do salvamento de pessoas e bens. Havia algo de forte, de solidário, de altruísta, de comunitário que a pequenada absorvia.
Os Bombeiros Voluntários do Peso da Régua representaram sempre, ao mais alto nível, os mais nobres valores da ajuda ao próximo, interpretando individual e colectivamente o lema de “dar de si antes de pensar em si“.
Mas tem sido também uma associação virada para a formação humana em todas as suas vertentes e para a cultura.
Quando muito jovem, fui um dos utilizadores assíduos da biblioteca. As obras de aventuras de Enid Blyton ou de Emílio Salgari, mas também os clássicos da literatura portuguesa como Eça de Queirós e Camilo de Castelo Branco, abriram muitos caminhos para o conhecimento aos jovens da minha geração, numa altura em que a informação disponível rareava, as bibliotecas públicas no interior eram uma miragem, e em que o poder político tinha outras preocupações, bem longe da cultura do povo.




Recordo com muita saudade o testemunho que me foi transmitido por meu tio José Arnaldo Monteiro, o seu referencial à literatura e à cultura em geral, e o carinho que sempre manifestou pela associação. José Arnaldo Monteiro foi um grande resistente à ditadura. Foi dos primeiros reguenses a envolver-se no movimento democrático e a perfilar-se na defesa de causas sociais. Em sua memória, e concretizando um desejo de família, será em breve entregue aos nossos bombeiros o fundamental da sua biblioteca particular.   
Saúdo por isso a orientação da direcção presidida pelo dr. José Alfredo Almeida, que tem feito da vertente cultural uma das suas grandes preocupações.
A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua, para além de ser a menina dos olhos da comunidade reguense, atingiu grande prestígio a nível regional e nacional. Honra a memória de todos os que a serviram, desenvolve uma profícua atividade no presente, e prepara-se para um grandioso futuro. Instalações, equipamentos e pessoas, sobretudo pessoas, a têm feito crescer, modernizar e consolidar. Mas será sempre com a memória e a cultura que este ideário reguense se perpetuará.
Vivam os nossos Bombeiros!"

Jorge Almeida

O que não nos dão

Foto: josé alfredo almeida


"A nossa história começou antes de nós e persistirá depois.Somos o resultado de uma cadeia inumerável de encontros, de gestos, boas vontades, sementeiras, afagos, afectos.Colhemos inspiração e sentido de vidas que não são nossas, mas que se inclinam pacientemente para nós, iluminando.nos, fundados na nossa confiança. Esse movimento, sabemo-lo bem, não tem preço, nem se compra em parte alguma: só se efetiva através do dom.

(...)

Hoje, porém, dei comigo a pensar também na importância do que não nos foi dado.E a provocação chegou-me por uma amiga que confidenciou: "Gosto de agradecer a Deus tudo o que Ele me dá, e é sempre tanto que não tenho palavras para descrever. Sinto, contudo, que lhe tenho de agradecer igualmente o que Ele não me dá, as coisas que seriam boas e que eu não tive, o que até pedi e desejei muito, mas não encontrei. O facto de não me ter sido dado obrigou-me a descobrir forças que não sabia que tinha e, de certa maneira, permitiu-me ser eu.". Isto é tão verdadeiro. Mas exige uma transformação radical na nossa atitude interior. Tornar-se adulto por dentro não é propriamente um parto imediato ou indolor. No entanto, enquanto não agradecermos a Deus, à vida ou aos outros o que não nos deram, parece que nossa prece  permanece incompleta. Podemos facilmente continuar pela vida dentro a nutrir o ressentimento pelo que não nos foi dado, a comparar-nos e considerarmo-nos injustiçados, a prantear a dureza daquilo que em cada estação não corresponde ao que idealizamos. Ou podemos olhar o que não nos foi dado como a oportunidade, ainda que misteriosa, ainda que ao inverso, para entabular um caminho de aprofundamento...e de ressurreição.

(...)

A grandeza do homem não lhe advém do lugar que ocupa na sociedade, nem do papel que nela desempenha, nem do êxito social. Tudo isso pode ser-lhe tirado de um dia para o outro. Tudo pode desaparecer num nada de tempo.A grandeza do homem está naquilo que lhe resta precisamente quando tudo o que lhe dava algum brilho exterior, se apaga. E o que lhe resta? Os seus recursos interiores e nada mais."

Tolentino de Mendonça

AMA VIDA...do Douro

Foto: josé alfredo almeida 
  

"A vida ri-se das probabilidades e põe palavras onde imaginamos silêncios e súbitos regressos quando pensávamos que não nos voltaríamos a encontrar."

José Saramago

(Re)Conhecer a Régua-63


O quarteleiro Zé Pinto

Foto Baía


Quem foi, afinal, o Sr. José Melo? O nosso “Zé Pinto”, nascido a 10/01/1915, foi quarteleiro e condutor nos Bombeiros da Régua durante variadíssimos anos. Foi casado com a D. Antónia Rosa Carvalho, também conhecida por “Antoninha dos Bombeiros”, que ainda está viva, com 95 anos, vivendo no Porto, em casa da filha, D. Maria Odete. O casal teve três filhos – o Bártolo, a Maria Odete e o Joaquim, que viveram nesta cidade -, e “Zé Pinto” ainda conheceu os quatro netos, o mesmo não acontecendo com os seis bisnetos, pois são “rebentos” mais modernos.
O Sr. Zé Pinto era um apaixonado pela sua actividade, disso todos temos a certeza, muito embora já esteja esquecida a sua acção. A paixão que ele tinha por aquela casa, o Quartel dos Bombeiros, era muito grande e causou-lhe imensa tristeza a separação forçada a que se viu obrigado. 
Todavia, o “nosso” quarteleiro não iniciou a sua actividade laboral directamente nos Bombeiros. Muito antes de entrar para tal função, ainda foi guarda-fiscal e só depois é que ingressou na Associação dos Bombeiros, onde ficou quase 40 anos.
Dado que teve um ataque cardíaco (surgiu-lhe uma angina de peito),viu-se forçado a ir para a reforma perto dos 60 anos, mas com um longo percurso de trabalho, problemática que lhe veio complicar o resto dos dias da vida, até que Deus o chamou a Si, em 14/12/1987, com 72 anos, situação que vivi muito de perto. 
Perante esta nova situação de vida, a reforma, procurou arranjar alguns entretenimentos para compensar o vazio do dia. Era regular apreciador de um bom jogo de futebol, bem como de uma boa tarde passada na pesca. Ia para o rio, a fim de poder “queimar” o tempo, já que as horas eram longas e nada do que fizera poderia ser de novo desempenhado. Ao menos isso, poder passar o tempo com amigos, porque a mágoa, o afastamento da sua paixão, mantinha-se no seu âmago.
Trazia os peixes que retirava das águas do Douro, mas, como solidário, distribuía-os pelos vizinhos. Não tive esse privilégio de poder comer peixes pescados pelo Sr. Zé Pinto, já que, quando o conheci, a condição física não lhe permitia grandes deslocações ou longas ausências de casa. É assim a vida que nos vai acontecendo, permite-nos alguns feitos, mas impede-nos outros. Parece que, no Céu, o Deus Supremo nos esquece . . .
(...)
Foi uma vida de dedicação à causa, colocando o serviço sempre à frente da sua vida ou qualquer opção que pretendesse concretizar. Perante toda esta lealdade e consagração, não houve um reconhecimento dos mais notáveis da Organização, enquanto o sr. Zé Pinto foi vivo e reformado, e hoje é tarde, dado que muitos deles já “partiram”, tal como o próprio “Zé Pinto”. Essa amargura levou-a ele para o Além, muito embora não mostrasse grande azedume com tal facto, mas alguma mágoa sentia, pois, como diz o povo, “quem não se sente não é filho de boa gente”.
Quando uma Organização tem nos seus quadros um elemento que lhe consagra quatro décadas exemplares de laboração (pelo que sabemos e pelo que nos dizem os que com ele conviveram), as quais foram interrompidas por motivos de saúde, e se esquece de enobrecer os préstimos do seu funcionário, muito mal procede e não pode dizer-se que valoriza os seus.
Se fosse um qualquer “graúdo” seria louvado e até agraciado, mas como não era um dos da “elite” deles, Zé Pinto ficou esquecido e relegado para um segundo plano, depois de passar a reformado. Viveu feliz com a esposa, os familiares e os amigos, que não lhe faltaram.

Adérito Rodrigues

Bombeiros da Régua...em acção de formação


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Poema do pescador

Foto: josé alfredo almeida


Como estrela cadente
como pedra rolando
na corrente
como lua caindo por detrás das dunas
como revérbero nas águas como reflexo
como um foco na noite
como um cigarro uma lanterna um astro
como escamas luzindo no canal
como o resto de um rasto
como um rastro
como um sinal: nada mais do que um sinal
uma luz a acender e a apagar.
Ou eu
a pescar.

Manuel Alegre

25 de Abril





Uma flor e uma canção.
Poetas
no ser e no fazer
a Revolução.

Meu cravo vermelho esmaecido
minha Grândola calada
só nos resta a esperança sufocada
do sonho destruido.

António Arnaut

Encostado a um velho muro

Foto: josé alfredo almeida

"Uma, duas, três vezes a Natureza me salvou.
Da última apelei para ela num desespero.
Não só a vinha que plantei me pagou generosamente em frutos, como me ensinou muitas coisas que ignorava.
Deste pedaço de terra, desta meia dúzia de campos se mantém o senhor José, a mulher, a filha e os moços - e eu próprio tiro o essencial para a vida.
Encostado a um muro velho, vi desfilar na minha frente jornaleiros e caseiros, figuras da realidade que se entranharam na minha alma para sempre.
Não foi o outro mundo das cidades que me interessou: ao contrário, pareceu-me sempre fantasmagórico.
O mundo que me impressionou foi este."

Raul Brandão

(Re)Conhecer a Régua-63

Foto: Manuel Ribeiro
Régua,1990

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Canção da tarde

Foto: josé alfredo almeida


Murmuro o teu nome ao rés da relva

Murmuro-o
Em diagonal da terra ao céu azul
Radiante

Felicíssimo
Não entendo nada.


Alberto de Lacerda

As cores da água

Foto: josé alfredo almeida


Olhou numa poça d’água
e viu a mão estendida.

Alongou a própria destra
Num impulso de acolhida

Mas, a mão tocou em nada.

Era, apenas, refletida
No espelho d’água parada,
A sua mão estendida.

Helena Kolody

Quando eu morrer....

Foto: josé alfredo almeida


quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura

Pontes à vista

Foto: josé alfredo almeida

(Re)Conhecer a Régua-62

Foto: Detflet Schikorr

 Régua, 1977

Coisas belas

Foto: josé alfredo almeida



Não entendo nada da vida.
Cada dia que avança entendo menos da vida.
Contudo, há horas, as horas perdidas - e só essas - que queria tornar a viver e a perder.
Deus, a vida, os grandes problemas, não são os filósofos que os resolvem, são os pobres vivendo.
O resto é engenho e mais nada.
As coisas belas resumem-se a meia dúzia: o tecto que me cobre, o lume que me aquece, o pão que como, a estopa e a luz.

Raul Brandão in "Memórias, I, prefácio"

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Cai a tarde

Foto: Miguel Guedes


Tarde cai a tarde
E a sombra vem andando pelo chão
Tarde cai a tarde
E a saudade
Também cai no coração

Pois alguém foi embora e não voltou
E outro alguém tão sòzinho aqui chorou
Tarde cai a tarde
Cai o pranto dos meus olhos sem amor

Vento sopra vento
Levantando a poeirada pelo chão
Vento sopra vento
Sopra forte dentro do meu coração

Folha seca você já carregou
Então leva a saudade que ficou
Tarde cai a tarde
Cai a tarde na minha vida sem amor

Tarde cai a tarde
Cai a tarde na minha vida sem amor

Tom Jobim

Dia Mundial do Livro


Os Lusíadas de Luís de Camões



Um dos meus livros....para ler  hoje, no dia 23 de Abril - Dia Mundial do Livro

Perder o comboio

Foto: josé alfredo almeida

(Re)Conhecer a Régua-62

Foto: Arquivo da CP

 Régua, 1970

Casa solitária

Foto: josé alfredo almeida

Meu amor,
a casa está tão sozinha que
os pássaros vêm morrer lá dentro.
Nada mudou, mas falta
a mão para acariciar o gato
e acolher a ninhada secreta,
o sorriso que enchia o tanque
e fazia crescer a horta.

Já ninguém apanha as laranjas mais altas
ou usa a sombra da nogueira.
E até os ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto de os abatermos:
a ausência diz-se melhor no esplendor
inútil das rosas sem esse olhar,
nas papoilas raras que duram
o tempo de uma fotografia.

Um dia, deixaremos também uma casa assim,
casulo abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós escutará as asas ansiosas
na chaminé, antes de pousar o livro
e amparar o último pássaro.
Só parecerá menos triste
porque não teremos, então,
nada mais a perder.

Inês Dias

terça-feira, 22 de abril de 2014

Régua à noite


Foto Baía


    A Régua tem
    em certas noites
    uma certa luz

    E eu tenho,
    em incertas noites,
    saudades...


José Alfredo almeida

Tudo tão simples

Foto: josé alfredo almeida


Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava

Ruy Belo

Árvore nua

Foto: josé alfredo almeida

árvore

nua

de peito amplo

retira da sombra da noite
a ciência do manto

Maria Azenha

(Re)Conhecer a Régua-61

 Foto de George Woods 
  Régua-1974

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Toda a luz

Foto: josé alfredo almeida

Nada procuro
senão sítio

onde atrasar o poema
e aquela sombra sem culpa

de quem leva ao coração
toda a luz que a mão espalha.

José Carlos Soares

Chegar ao passado




Esta escrita organiza-se na construção de uma memória, constitui-se meticuloso inventário íntimo. Ficciona o tempo para obter matéria narrativa. Recusando a recordação nostálgica, estabelece-se como trabalho de arqueologia: procura em camadas, até achar o que já foi ouvido, herdado, roubado, esquecido. Esta escrita faz-se e refaz-se contra a morte:

«Das fotografias antigas, o que de mais terrível fica é saber-se o fim.»
Narrar é produzir o real, narrar resgata, redime.

«chegar ao passado e dizer, à menina das tranças: não chore, nós gostamos tanto de si, e abraçá-la, ocupar o lugar de uma boneca feia que ela agarra e chamá-la ao ouvido: minha princesa


Beatriz Hierro Lopes

(Re)Conhecer a Régua-60


Spirit of Chartwell

Foto: josé alfredo almeida