terça-feira, 27 de junho de 2017

Três belas frases de João de Araújo Correia



Bem me lembro que num Agosto de há mais de trinta anos eu fui por aí fora a caminho da Srª da Lapa, em dia de romaria grande. Às tantas desviei-me da estrada de Moimenta e enfiei pela estradinha da Soutosa, estradinha pouco expedita, na Serra de Leomil. Foi então que dei de caras com a aldeia de Nacomba, coisa inesperada mas, ainda assim, com algum relevo nas miudezas do mapa.
Nacomba surgiu-me a deslado, meio aconhegada num desses vales que dão as águas e dão o ser aos requebros da Serra de Leomil.
Nacomba era um povoado de casas velhas e humildes, casas de telha vã com todo o negror do tempo e da fuligem.
À distância de todos estes anos passados, é crível que um ou outro emigrante tenha feito ali uma casa mais arrebicada, a dar algum sainete às gentes do lugar, aos caminhos lastrados de mato galego, mesmo àquele chão onde se imbricam as leiras de sementio.
E bem me lembro que quando li o conto “Os Cegos de Nacomba”, de João de Araújo Correia, logo me deu no goto esta frase admirável: Meia dúzia de casas perdidas na unhada que Nosso Senhor dera num monte.
Esta frase, tão metafórica e tão sintética, ficou-me a vida inteira, a dizer-me, só por si, da omnipotência e da omnisciência de Deus, Nosso Senhor.  
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Bem me lembro ainda das antigas carregações do vinho na casa agrícola de meus pais, nos subúrbios da Régua. As carregações eram uma festa aos meus olhos de rapazinho descuidado. Eram carros e mais carros de bois, cada qual com sua pipa bem arrochada; e eram os carreiros, os matulas de armazém, os serventes beberrões e eram, principalmente, os bois, sempre a esmoerem palha milhã e inçados de mosquedo. Por esse tempo os carros de bois eram os carros de aluguer e o pecúlio entesoirado fazia com que os carreiros levassem vida bem regalada. Pode dizer-se, até, que os bois eram afagados com amor. Livres de andaços ou mazelas, nédios, bem nutridos, cheios de carnes e untuosidades, eram umas estampas de bom porte e boa galhadura, coisa digna de se ver e eram também a vaidade dos carreiros.
Imagine-se agora uma junta de bois a dormir no eido, numa noite de lua cheia, noite profunda e silenciosa de Estio.
Imagine-se que vamos até à janela a ver o sereno irreal da noite enluarada e a ver a junta de bois assim amodorrada.
João de Araújo Correia dá-nos esse quadro. É como se fossem dois versos na sublimação de um poema:Duas medas de carne fulva untadas de luar. 
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Lembra-te homem que és pó e em pó te hás-de tornar.
Mas, na hora de prestar contas no outro mundo, quem fala são, muitas vezes, os preconceitos e as mundanidades.
Luxos, bonitezas, fidalgos ou cavadores, obtusos ou letrados, ricaços ou mendicantes, celerados ou preguicentos, ao fim e ao cabo todos dormirão o sono da eternidade polvorenta. Quem no-lo diz é João de Araújo Correia. Diz esta belíssima frase tão judicativa como sentenciosa:Tanto voam para sempre os que têm asas de prata no caixão, como os que se remedeiam no voo com as asas das omoplatas.


Manuel Braz de Magalhães

Regresso à Régua




Publiquei aqui em 20 de Maio último uma carta intitulada O Peso de Regra, na qual me referia à capela da Misericórdia de Peso da Régua como uma das mais bonitas igrejas existentes em Portugal e acrescentava que não se sabia praticamente nada sobre o edifício. Graças a José Alfredo Almeida um amigo da sua terra, fiquei a conhecer outra bela obra na Régua, o Quartel dos Bombeiros Voluntários construído em duas fases entre 1929 e 1955 com o projecto do arquitecto Francisco de Oliveira Ferreira (1884- 1957), o autor também creio eu, do palacete dos Barretos, hoje Biblioteca Municipal da Régua.
A Régua conta com vários edifícios de qualidade registados pelo Serviço de Inventário do Património Arquitectónico (não o Quartel dos Bombeiros infelizmente): a Câmara, a Igreja Paroquial, a capela da Misericórdia, a capela do cemitério, o atual Centro de Saúde, a sede local da Caixa, os Correios, o Tribunal, a estação de CF, as pontes metálica e rodoviária sobre o Douro. O Museu do Douro constituído por edifícios antigos recuperados e uma adição muito moderna, também ajuda a que a Régua seja que uma terra que vale a pena visitar.
O arquitecto Francisco de Oliveira Ferreira é conhecido sobretudo por quatro edifícios, embora tenha projetado dezenas deles no Porto, em Gaia, nas regiões Norte e Centro. Esses edifícios são a Câmara de Gaia, o café A Brasileira, no Porto, o Hotel Astória, de longe o melhor edifício da margem direita do Mondego em Coimbra, e a chamada Clínica Heliântica de Francelos ou Valadares que franqueou a entrada do arquitecto nos higiénicos registos da arquitetura modernista porque não tem telhados (os modernistas benzem-se de horror cada vez que vêem um telhado num edifício recente), sendo constituído essencialmente por largo terraços sobre pilares, necessários aos tratamentos por exposição ao sol em que se acreditava muito na época.
São característicos na arquitectura da segunda metade do século XIX e dos primeiros anos do século XX o género de vãos, molduras e remates de pedra com que  Oliveira Ferreira compunha e ornamentava as suas obras, diferentes daqueles que se utilizavam em séculos anteriores mas de idêntico ao carácter: janelas duplas ou semicirculares (como as do Quartel dos Bombeiros que admitem uma luz belíssima no interior), arcos abatidos, mísulas agudas ou alongadas, pináculos.
Neste quadro, não tenho a certeza de que a capela da Misericórdia da Régua tenha sido projectada por Oliveira Ferreira. Parece-me mais suave e mais colorida (graças aos azulejos e vitrais) um pouco à maneira de outro grande arquiteto da época, Marques da Silva (1869-1947). Quem sabe? A arquitetura da Régua merece uma investigação séria.


Paulo Varela Gomes

Eternamente Douro-69

Foto:josé alfredo almeida

Pontes da Régua-1053

Foto: josé alfredo almeida

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Menino do Douro




Guardo intacto o rio.
Os cheiros, as manhãs claras e as tardes doiradas,
iluminadas pelo teu sorriso.

Um dia, gritaste-me:
Um dia, hei-de levar-te a conhecer o mundo!
E eu acreditava em ti.
Como acreditava na manhã de cada dia e no doirado das tardes.

Fechava os olhos e tu levavas-me por esse rio afora.
Dentro do meu coração fui contigo ao fim do mundo.
E regressei.

Regresso sempre ao nosso rio.
Ao teu sorriso cheio de promessas.

A casa.


Ana de Melo

Entre mergulhos

Foto:josé alfredo almeida


Entre mergulhos

uma pedra rasa salta três vezes

na água.

E assim se divide

assim se parte

o rio. A infância

dum lado. Do outro

a terra firme

onde isto se passou.



Pedro Mexia