segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Mãos que beijam




    Cresceu a menina que embalou bonecas e tinha medo de cães  ameaçadoramente guardadores da residência.
    Quando a Perdigueira ofereceu aos  patrões um par de filhotes, estes, passada a fase da teta, elegeram o colo da donzela como berço fofo e quente. Acertaram. Aquelas mãos de ternura macia, logo os fizeram esquecer a aspereza da língua materna.
    Em breve aqueles cachorrinhos ganharão tamanho e trocarão a passividade dos afagos, esquecerão o sabor dos mimos, partindo, à solta, por caminhos de liberdade e de aventura.
    Quem virá, então,  à procura desse colo desocupado, desse esbanjar de afectividade, da magia dessas mãos protectoras? Estará ela, triste, sozinha, nas escadas, ou será preciso subi-las e bater à porta? A abri-la, quem sabe, um coração adulto, ávido de outros afectos, umas mãos destinadas a outras carícias.

                                                                   

Vila Real, 24 de Setembro de 2017
M. Hercília Agarez

domingo, 24 de setembro de 2017