quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Auto-Retrato

  Miguel Torga: comemora-se hoje mais um aniversário da sua morte, ocorrida em 1995




"Desta terra sou feito".
Em cima dumas fragas
Me pariu Diana.
Quem a fecundou?
Orfeu
Ou Prometeu?
Não sei.
Poeta sou
E caçador.
Do céu roubei
A Zeus
O fogo da criação.





M. Hercília Agarez 
in Miguel Torga A Força das Raízes (ensaio), Papiro Editora, 2007

Último pescador

Foto: josé alfredo almeida

Eternamente Douro-278

Foto:josé alfredo almeida

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O Inverno da vinha

Foto:josé alfredo almeida


Cepas em quase cruz. Tiritantes, mas firmes. Negras como os esteios, amparos dos seus anos, da sua velhice. Em compasso de espera. Pela frialdade que lhes chega às entranhas, adivinham a chegada dos trabalhadores, das suas mãos sábias, credenciadas por longa experiência nas delicadas tarefas da poda e da empa.

A tesoura não repousa. É sua eterna companheira, tão indispensável como em missa sacristão. Dela cairão em chãos invernosos varas inúteis, desordenadas. Inúteis nas videiras, úteis quando, em molhos feitas, substituem as acendalhas em lareiras rurais.

A empa (ou erguida) leva-me a Miguel Torga e a um dos poemas "Bucólica" em que enumera, entre nadas de que é feita a vida, um gesto do seu velho: "Meu pai a erguer uma videira / Como quem faz a trança à filha".

E eu, reduzida à minha insignificância perante o mestre, digo:
                                                               


Dedos encarquilhados
                                      erguem videiras:
                                      lavores no masculino.

                                               in As Asas da Libelinha



M. Hercília Agarez
Vila Real, 16 de Janeiro de 2018

Faz-se tarde

Foto:josé alfredo almeida



faz-se tarde 
e eu deixei de esperar-te.






José Agostinho Baptista

Como uma árvore

Foto:josé alfredo almrida





Nunca tive os olhos tão claros e o sorriso em tanta loucura. 
Sinto-me toda igual às árvores: solítária, perfeita e pura



Cecília Meireles

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Despida pelo vento

Foto:josé alfredo almeida




Impúdicas, as árvores,
deixam-se despir
pelo vento.




M. Hercília Agarez in As Asas da Libelinha