quarta-feira, 27 de julho de 2016

Fazer negócio





Escreveu João de Araújo Correia sobre o comércio local que a Régua "enquanto terra de província, os seus estabelecimentos serão conhecidos pelos nomes dos seus conceituados donos."

Esta sua  afirmação remonta  a um passado que o escritor vivenciou como um cidadão atento à terra onde nasceu e, se calhar, observou mais como médico estabelecido num consultório aberto numa das ruas principais, na antiga  rua de Medreiros.

Pode dizer-se, que esse foi o comércio local ou tradicional da Régua do seu tempo. Desde então, tudo mudou por toda a parte e na cidade da Régua os pequenos e os grandes negócios evoluíram para um outro tipo de lojas modernas e mais  apelativas para os novos consumidores ávidos de tudo e de nada. 

Não posso, assim, dizer que aquela afirmação do escritor seja válida para compreender o comércio tradicional do nosso tempo.Mas, a verdade seja dita, o comércio na Régua mudou muito, numas coisas para melhor  e noutras para para pior, conforme os prismas em que quisermos olhar. As principais lojas não têm um dono, tem investidores de capitais e desconhecidos empreendedores que vendem tudo ou quase tudo em superfícies  comerciais. 

O comércio tradicional na Régua morreu. Como morreram  já os antigos donos das lojas, onde os nossos avós foram fregueses estimados, pelo atendimento personalizado de gente com rosto, um sorriso e atenção especial no preço. Como nós seres mortais, são muito raras as lojas do comércio reguense que sobreviveram ao tempo em que o nosso escritor as celebrizou nos seus escritos. Longevidade no comércio tradicional é um mérito e um sucesso que só  alguns alcançam e permanecer no ramo com mais de um século de existência revela uma capacidade extraordinária de aliciar os seus velhos e novos clientes.

No ramo  das fazendas, tecidos e outras miudezas, na Régua triunfou a Casa Antão que, ao longo de tanto tempo, resistiu a todas as mudanças e a todas modas e, certamente, a muitas crises económicas e sociais. Do tempo dos antigos donos que lhe deram o nome, existência e prosperidade, pouco ou nada sabemos. Mas, pelo retrato tão preciso da realidade que o escritor nos fez das lojas do seu tempo, podemos ainda recordar as "vozes femininas esganiçadas:
-Senhor Francisquinho, um carro preto nº30. 
-Senhor Francisquinho, um tubo de retrós.
-Senhor Francisquinho, uma carta de agulhas."

Podemos ouvir,  na memória colectiva, essas vozes femininas e lembrar a figura do comerciante metido num "buraco onde passava horas infinitas à espera do "lá vem um". 

E podemos ouvir a voz de um velho comerciante do nosso tempo. A A voz de Heitor Teixeira, o conceituado dono da Casa Antão. Ele que, que hoje celebra 86 anos de vida e, por ele ser a única voz viva - e sempre activa - do comércio tradicional da Régua, que lhe dedicamos uma singela homenagem.

Gostamos de o saudar neste seu aniversário pela sua dedicação permanente a negócio de fazendas e miudezas e, além do mais, pela sua gentileza  e simpatia, que verdadeiramente o definem como um comerciante que sabe e  gosta de fazer negócio e também o distinguem como um  exemplar cidadão reguense.   

Como cliente da Casa Antão, tenho de gabar o seu dono, as virtudes do  patrão e gerente comercial e, sobretudo,  elogiar-lhe a enorme paciência de  abrir à Régua - e ao Mundo- as portas de uma loja mais que centenária, onde nenhumas das sua modas - de tecidos e fazendas -  nunca passaram de moda.


Hoje, Senhor Heitor, a Régua tem a obrigação de lhe fazer um brinde muito especial.


 José Alfredo Almeida

1 comentário:

  1. Uma saudação . simples , e com agrado meu , ao,

    Senhor HEITOR...
    Ainda hoje ..eu "entro na sua , LOJA e o cumprimento..com ALEGRIA..
    BEM HAJA ...AMIGO MEU DR JOSÈ ALFREDO...

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