quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Estamos catitas!!!



Foto:josé alfredo almeida




Estas folhas que estremecem na tarde

não sabem que dançam

à roda do universo

José Tolentino de Mendença




        Cá connosco não há complexos de inferioridade arbórea. Somos vizinhas das vinhas. Amanta-nos o mesmo sol, prateia-nos a mesma lua, chegam-nos frescuras das mesmas águas, sobrevoa-nos a mesma passarada. Quando elas (as folhas) se vermelham e acastanham, e atijolam, nós primamos pela fidelidade ao amarelo, jurada perante as ninfas do Douro, de papel passado…

    Amarelo. Cor de má fama em expressão esfrangalhada pelo uso: “se não fossem os gostos, que seria do amarelo!” Saiamos, pois, em sua defesa. Com que lápis desenham as crianças o sol? Com que tonalidade acenam as “searas onduladas/ Pelo Vento” (Torga) no celeiro de Portugal? Como se veste o mais precioso dos metais? Que coloração no esplendor de girassóis, dinâmicos em campos de cultivo, estáticos em tela de Van Gogh? Não são mais bonitos e icónicos os canários parecidos com limões maduros? Não combina bem com o negro do corpo do melro macho o amarelo do seu bico? Chega, como argumentos?

    Continuemos, então. Estas árvores, espécie de muralha ribeirinha, envelheceram sem cuidados. Não tiveram dores de parto, logo, nada de filhos para criar. Cresceram e fizeram-se à vida sem rapapés de podas e empas, de sulfatagens e enxertias, ninguém lhes arrancou galhos uns para fortalecer galhos outros, mãos não lhes mexericaram entranhas em busca de comestíveis. Gentes, sim, desfrutam-lhes frescuras sombrias, olham-nas em nostalgia de Outono, em viço de Verão. Respeitam-lhe a compostura eréctil, o comportamento fraterno feito aconchego de apertos. Também elas falam Régua, não abdicando do seu papel na identidade paisagística. Delas se pode dizer que são árvores que sabem estar


    Para rematar a minha missão arguente na reposição da justiça devida à cor amarela, pespego aos leitores palavras sabichonas: “Intenso, violento, agudo até à estridência, ou amplo e ofuscante como um metal em fusão, o amarelo é a mais quente, a mais expansiva, a mais ardente das cores”. (Dicionário dos Símbolos

M. Hercília Agarez
Vila Real, 07 de Novembro

2 comentários:

  1. Que fotografia mais bela!!!
    Espelhadas nas águas do Douro o belíssimo amarelo
    ainda dá mais razões, para enaltecer a aparentemente
    mal amada cor amarela. E eu que sempre gostei tanto dessa cor!
    Nunca consegui foi defende-la de maneira tão veemente como a deste
    belíssimo texto. Agradeço.

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  2. Tão "catitas "....doces .também..
    ..Espelho .."mágico " ..Espelho mágico..
    ..Tão resplandecente ..tão vibrante !!!!

    FABULOSA FOTOGRAFIA !!

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