quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Partem tão tristes as folhas…

Foto:josé alfredo almeida





Nunca a natureza teve uma linguagem e a filosofia outra 

 Juvenal



Passear-me-ei em caminhos durienses até que se sepultem as últimas cores outonais. Hoje assobiou-me esta árvore, chamando a minha atenção para a sua imagem fluorescente, exuberante, bizarra, em auto fruição vaidosa de um efeito girândola, em que as folhas são foguetes de lágrimas amarelas. Choram porque a ida não tem volta. Apenas uma oportunidade de vida lhes é dada. Outras virão, iguais, parecidas, nunca as mesmas. É um pouco como as águas a que dedicam os últimos suspiros. Tudo é mutável. Como escreveu Heráclito, “Nada é permanente, excepto a mudança”. Por isso, entre outros sábios pensamentos, lembra que ninguém entra uma segunda vez nas mesmas águas de um rio. Nem elas são as mesmas, porque o seu fluir não admite paragens, nem quem se re-banha é exactamente a mesma pessoa. Basta que tenha mudado de pensamento, de fácies, de ânimo. Muito temos ainda que aprender com os filósofos da antiguidade!

Que tenho eu, afinal, de tão apelativo, à minha frente? Impõe-se-me, logo, arrogantemente, um tronco ossudo, erecto, resistente, muito macho, de “antes quebrar que torcer”. Parece ter andado por ali mão de escultor, em trabalho experimental, talvez em estágio académico. Pode ter optado mais pela sugestão criativa do que pela explicitação imitativa. Terá pretendido sugerir uma esfíngica bailarina, de vestido colante e comprido, de braços elevados em desigualdade de comprimento, numa altivez egoísta, indiferente a quem parte, sem saudades de pendurezas excrescentes, inúteis, escorraçadas sem piedade após ter expirado o seu prazo de validade. A ausência de cabeça tem sentido. Anda por aí tanta gente a perdê-la!


M. Hercília Agarez
Vila Real, 21 de Novembro

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