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| Biblioteca dos Bombeiros da Régua- Dr. Maximiano de Lemos |
Quando o quartel dos nossos Bombeiros funcionou
modestamente numa casa situada no actual Largo dos Aviadores, frequentei-lhe as
salas recreativas com o meu pai - era eu rapazinho.
Na sala dos jogos, inofensivos jogos de cartas,
dominó e quino, lembro-me de ver, encostada a uma parede, uma alta e larga
estante de madeira rica, toda envidraçada e repleta de livros.
Creio que ninguém lhes tocava. Quem se entretinha
com a sueca, o dominó e o quino talvez nem reparasse na volumosa estante,
abarrotada de livros.
Reparava eu... E o meu regalo seria abrir aquela
estante e colher de lá um livro para o folhear e ler antes de me deitar. Assim
eu o percebesse. Era ainda tão novo… Teria onze, doze anos.
Os meus encantos, naquele clube, eram aquela
estante. Mas, sempre fechada e muda. Até que uma noite, e em noites seguidas, a
vi abrir. Um senhor, que usava óculos, ia retirando e colocando de novo, no seu
lugar, rimas de volumes. Arrecadava-os depois de lhes escriturar os títulos num
grande livro de papel almaço.
Procedia, a seu modo, à catalogação dos livros da
magnífica estante. Se fosse hoje, catalogaria em verbetes, mais fáceis de
consultar que um bacamarte de papel pautado. Mas, em suma, aquele senhor de
óculos, talvez inocente em bibliografia ou biblioteconomia, sempre tentou, o
melhor possível, o inventário dos livros.
Livros que nunca mais esqueci. Quando, depois de
instalados os bombeiros no quartel novo, alguém me disse que todos esses
volumes estavam à matroca, empilhados num monte, sem o mínimo vislumbre de
arrumação, caiu-me a alma aos pés. E assim esteve, de rastos, uma porção de
anos.
Até que ontem, dia que marquei com uma pedra branca,
vim a saber que os livros já estão arrumadinhos na estante – bela estante de
mogno.
Falta-me saber se já começaram a ser catalogados.
Livros sem catálogo, para quem os quiser consultar, são inúteis ou pouco menos.
Qualquer biblioteca exige três catálogos: o
onomástico, o didascálico e o ideográfico.
O mais importante de todos, em minha opinião, é o
onomástico. Poderá esperar, até melhores dias, pelos outros dois.
A velha estante dos nossos bombeiros poderá prestar
serviços a estudiosos se for catalogada. Mãos à obra? Agora, que os Bombeiros
festejam o centenário, saúdo-os com este alvitre.
João
de Araújo Correia

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