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| Foto Baía |
"Traz-me aqui a apologia – a memória humanista e de gratidão – de uma instituição com 131 anos de vida, a quem reconheço o valor de cidadania nos tempos modernos e que eu desde tenra idade aprendi a respeitar porque os fogos que via lavrar pelas encostas sempre foram combatidos pelos soldados que, ouvindo o toque da sirene, largavam os seus empregos e acorriam para prestar o seu elevado dever simultaneamente profissional e cívico, ao serviço do humanismo e perpetuando a glória de (do) ser humano. O zelo e o espírito de devoção à sua missão e papel social na Régua são as marcas incontornáveis desta instituição centenária presidida actualmente pelo Dr. José Alfredo Almeida: a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua – não completamente a despropósito, motiva-me introduzir uma certa nostalgia neste texto, lembrando (partilhando a memória de) que foi nas instalações (no quartel) dos bombeiros da Régua, em particular na sua biblioteca, que li os meus primeiros livros de ficção científica e também lá joguei várias vezes ténis de mesa.
Também me traz aqui o “poder” – sigo de perto o pensamento de Agostinho da Silva nas suas Quadras Inéditas (1990): «Eu não quero ter poder / mas apenas liberdade / de falar aos do poder / do que entenda ser verdade» – de com a palavra publicada pedir às instâncias autárquicas e do governo central mais meios para os bombeiros (em particular os da Régua) poderem cumprir com dignidade a sua missão (a qualidade do socorro às populações é uma causa das mais nobres), pugnando ainda mais pela elevação da imagem pública do bombeiro, da sua sacrossanta Causa, sob a veste da gloriosa farda que os conduz a tanta amargura e dissabor como honra e satisfação. Não obstante, para melhor situar estas questões, importa realçar que os bombeiros da Régua têm apostado na progressão e na inovação, concretizadas na aquisição de mais e melhores viaturas de combate a fogos, de resgate e transporte de doentes e, como reforço da política de voluntariado, foi criada uma equipa de cinco bombeiros permanentes e profissionalizada, assim como decorrem no quartel Delfim Ferreira obras de melhoramento da vertente operacional e da qualidade dos serviços de socorro.
Em analepse e numa ainda necessária sinopse documentada, importa recordar a data de 1873, ano em que surgiu o primeiro carro de material provido de uma bomba para acudir aos incêndios que deflagrassem na região. Foi uma aquisição da edilidade do Peso da Régua. Esta novidade uniu esforços e vontades e finalmente a 28 de Novembro de 1880 nascia a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua, que de então em diante ficaria responsável pelo material existente, tornando-se, portanto, a mais antiga e acarinhada associação do género no distrito, tendo como primeiro comandante Manuel Maria de Magalhães.
(...)
Dir-se-ia que é de homens e mulheres desta estirpe (dentro do espírito que preside não só à sua honra profissional, não raras vezes ignorada neste país do esquecimento, como também ao orgulho do [ainda] necessário voluntariado) que a vida é perpetuada dentro da razão que salvaguarda a dignidade humana, num tempo quase-pós-humano, de raro humanismo e nunca antes tão confuso."
António José Borges in "Memórias Vivas"

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