Corpo de Bombeiros Voluntários do Peso da Régua - 28 de Novembro de 1880 |
Ser
bombeiro. Eis o sonho de qualquer rapaz, pelo menos do tempo dos meus verdes
anos. Guiar camiões também não era desejo ausente nas nossas cabeças de
imaginação sem limites e de vidas imaginadas como eternas, mas ser bombeiro é
que era.
O aperalto
das fardas e o reluzir dos capacetes eram de todo o encanto. Mas o toque da
sirene, o rodopio aflito dos homens que impulsivamente obedeciam ao seu som e o
estridente arranque dos carros em direcção à adivinhada tragédia faziam brotar
a certeza absoluta de que um dia podiam contar connosco.
Ir-se para
bombeiro era, ao fim de contas, concretizar-se em adulto algo que em criança se
desejou. Bastava que, com o devir os anos, a flor do querer nascida na
imaginação não fenecesse por falta de alimento, ou porque outros anseios lhe
ocuparam entretanto o lugar.
Do conjunto
destes sonhos e destas capacidades de imaginação, entrelaçados com a vontade de
servir quem a dado momento mais necessita, nasceram as associações humanitárias
destinadas ao valor supremo da solidariedade, inequivocamente o sentimento que
diferencia os homens dos restantes seres vivos deste nosso planeta azul.
Foi o caso
da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários do Peso da Régua, em boa
hora surgida no já longínquo dia 28 de Novembro de 1880. Era então a vila, seu
berço, uma das mais luzidias de todo o interior de Portugal, mercê das suas
potencialidades naturais e do labor dos seus habitantes, homens de visão e de
forte empenhamento empresarial e cívico.
Foi, sem
sombra de dúvida, um acontecimento marcante na vida de todos nós, quer na dos
que nos antecederam, quer na dos que nos seguirão num tempo que não viveremos,
mas que nos compete garantir.
Não
testemunhei em presença, como é óbvio, os momentos do nascimento da corporação
dos bombeiros da Régua. No entanto, quase consigo imaginar as horas, os dias, e
os meses em que se pensou e se preparou tão feliz acontecimento. Tive o gosto e
o privilégio de rebuscar documentos que singelamente organizei de forma a lhe
dar alinhamento em livro, e bem sei das canseiras que então se viveram. Nada me
custa pois, então, garantir a justiça de qualquer homenagem feita ou a fazer,
mais não seja pelo exemplo de todos os que, ao longo de décadas, dispensaram
tempo e canseiras a tão insigne obra.
Graças a
eles, na segunda metade da centúria de mil e oitocentos, a vila do Peso da
Régua ficou dotada de forma pioneira com um corpo activo de bombeiros
abnegados, briosos e altruístas.
A comunidade
agradeceu-lhes e soube, podemos hoje testemunhar, louvá-los com a renovação
humana de um conjunto de elementos que em tempo algum se negou ao auxílio e à
acção em prol dos outros, sempre com sacrifício e por vezes até com a própria
vida. Até hoje, os exemplos de antes servem de suporte e de molde orientador aos
que agem e servem recebendo em troca muito pouco ou nada, garantindo, no
presente, um futuro que, já não sendo o que era, não pode mesmo assim ser
encarado sem optimismo e sem esperança.
No decurso
de século e meio de vida, pouco falta, pelos lados dos bombeiros da Régua
viveram-se, como em tudo na vida, momentos mais tristes e mais complicados, mas
viveram-se também momentos de alegria e de festa. Quer nuns, quer noutros,
nunca mingou a coragem e sempre imperou a dignidade.
Diz-nos a
História que a A. H. B. V. Peso da Régua sempre esteve na vanguarda sem
conhecer a inércia ou o comodismo. Instalou-se a sede primeiramente ao cimo da
Rua Serpa Pinto, passou-se para a Rampa Dr. Dias, e depois, ia o século XX a
meio, deu-se forma ao actual quartel, um dos mais belos e emblemáticos
edifícios da cidade reguense. Equipamentos materiais, esses, sempre foram do
mais moderno e melhor, para acção que nunca faltou.
Para
memória, ficaram-nos os testemunhos de acontecimentos, entre outros, como a
enorme derrocada nas Caldas do Moledo em 1904, que destruiu edifícios e
arrastou trinta pessoas até às águas do rio Douro, além das inúmeras cheias do
rio que nos dá o ser e cujos humores nos habituamos a respeitar com
desassombro, pois sabemos com quem podemos contar. Na região duriense, em
Lamego, em 1911 e em 1918; em Mesão Frio, em 1916 e em 1957; em Laurentim, em
1929, e noutros locais, sempre os bombeiros da Régua, souberam dar testemunho
da sua valentia. Mas também na Régua, como não podia deixar de ser, a sua acção
foi de elevada índole e de ímpar brio. Em 1915, aquando da revolta popular que
incendiou a repartição das Finanças; em 1919, quando as forças revoltosas e
monárquicas incendiaram o edifício do Asilo José Vasques Osório; em 1937, no
terrível incêndio que lavrou no edifício da Câmara Municipal; em 1956, quando
foram consumidos os armazéns de uma firma de vinho do Porto na Avenida Dr.
Manuel Arriaga, e em 1953, quando ardeu por completo o empório de secos e molhados “Casa Viúva Lopes”, e em cujo combate pereceu o
bombeiro João Figueiredo, conhecido por João
dos Óculos.
Para a
história dos momentos grandiosos, ficou a organização, em 1980, do 24º.
Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, que trouxe à Régua milhares de
bombeiros e dirigentes, à semelhança do que sucedeu recentemente em 28 a 30
de Outubro de 2011.
Ser bombeiro
é, pois, um sonho de qualquer criança. Mas ser bombeiro da Régua será
inquestionavelmente um motivo de orgulho de todo o adulto que, mesmo não
envergando tão distinto uniforme, bem pode ver-se como elemento de tão
altruísta associação cívica.
Manuel Igreja
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