Sem Método
Notas Sertanejas
Autor: João de Araújo Correia
1ºEdição: Imprensa do Douro, 1938
2ºEdição revista pelo autor: Editorial Estampa, 1983
Prefácio da 1º Edição
" Sem Método é estreia literária, o primeiro livro dum escritor.
Podia o autor ser conhecido numa roda de homens de letras, no círculo mais vasto de leitores dum jornal, num cenáculo científico até, em que estudos especializados lhe houvessem proporcionado o ingresso. E isso dava-se com o Dr. João de Araújo Correia, desde os seus tempos de estudante de Medicina companheiro e amigo de artistas, poetas e prosadores; há pouco tempo ainda, animador do Jornal da Régua - semanário provinciano com cotação no mundo literário; sócio correspondente do Instituto de Coimbra pelos seus méritos de folclorista...Mas só pelo livro a massa de amadores de belas-artes e o grande público tomariam contacto efectivo e perdurável com o autor. Só pelo livro, oferta primicial de romance ou peça de teatro, braçado de contos ou de crónicas, o escritor aparece escritor - quando o é - para o momento como para a eternidade dos julgamentos.
(...)
A conca da Régua, circundada de ásperas montanhas, regradas quase até o alto de vinhedo socalcado, e em cujo fundo a água pardo-esverdeada do Douro se atarda em curva lenta, surpresa e deleitada de estirar-se em leito de fina areia branca, imprimia carácter ao Sem Método. Não que o autor pretendesse fazer dela o centro do mundo e dos seus pensamentos, mas pela força dominadora do ambiente local em que se desenvolve a maioria das cenas descritas, evocadas ou criticadas pelo autor.
(...)
Belíssimas páginas de descritivo paisagístico - Lamego, Vila Real - agudas observações biográficas, - como as que se referem a Vieira da Costa, Monteiro Ramalho e António da Nóvoa, - contributos preciosos de demopsicologia - atavismos, crendices, costumeiras populares -, notas críticas de certeiro jacto, cronicazinhas suavemente evocativas, ou fidelíssimas na reprodução, com a frescura de aguarelas rápidas, - aponto aquela XXXVI, a do contraste entre o viticultor duriense e o serrano das vindimas, que merece honra de figurar em antologia nacional - escapadas sentimentais pelo tempo passado e presente, reabilitações históricas, - como a que se refere à operosidade dos galegos que ajudaram a entalhar de geios as encostas do Douro - de tudo se encontra neste primeiro livro, que é obra distintíssima dum prosador que se afirma.
Procurei, neste julgamento sumário, ser justo. Os leitores verão que não errei...
Vergílio Correia

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