quinta-feira, 8 de maio de 2014

a gaveta do fundo - Prémio Melhor Livro de Poesia




a gaveta do fundo

 Prémio Melhor Livro de Poesia atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores

Autor: A. M. Pires Cabral

Editora: Tinta da China



A terceira via

Do alto deste monte, numa manhã assim,
só há duas coisas a fazer:
chatear deus ou deixar deus em paz

Minto.
É claro que há uma terceira via
(mas dá muito trabalho):

fingir que não o vejo nem o oiço
do alto deste monte
na luz desta manhã.



Restam as hortas

De toda a lavoura que já teve este lugar,
restam as hortas, e não é por acaso:
são mais aconchegadas à aldeia
e por isso não exigem grandes caminhadas
nem excedem em muito as forças dos velhos
e, enfim, as couves e as batatas
estão pela hora da morte no mercado.



"A colectânea contempla, grosso modo, três vertentes temáticas. Uma diz respeito a memórias de vivências rurais em convívio fraterno e cúmplice com campos cultivados, flores, árvores e frutos, ribeiros tranquilos, animais seus irmãos de vida, gentes labutadoras, sons de noras, de carros de bois e de chocalhos de rebanhos, “peixes distraídos”. Memórias comovidas também porque associadas a um tempo privilegiado de infância e adolescência, porque não passam mesmo disso, de memórias de realidades sofridamente irrecuperáveis. (…)
Uma segunda vertente é a dicotomia passado/presente em que o primeiro espreita, marca, implícita ou explicitamente presença. (…) O poeta nos guiará, nos dará a sua visão poética, amenizará com a beleza de palavras e imagens a dureza de uma realidade irreversível de transformação e abandono. (…)
O tema dominante deste livro é, sem dúvida, o da desertificação das aldeias nordestinas, o abandono dos campos, a modificação da paisagem. Como escreveu Pedro Mexia, é ele um “Requiem transmontano” e melhor não sou capaz de dizer. (…)
Ignoramos se é intencional da parte de Pires Cabral dedicar os últimos quatro poemas ao que resta do passado e que pode assim resumir-se: pequenas hortas de subsistência, escombros, “pedras, cardos, ervas sem préstimo”, poeira, “Gente pouca, envelhecida, / muito dada a morrer.”, “ventos que mordem o vazio dos campos”, em suma, e empregando uma eloquente expressão do autor – “O desuso agrário”. Do que foi vida, movimento, cultivo, azáfama agrária, produtividade, “Restam as hortas”, poema fulcral na economia da obra, espécie de súmula, de síntese de um Nordeste sempre assumido. Apesar de tudo, algo resta de uma identidade ameaçada, além dos tais cibos resistentes onde o ventre da terra continua a abrir-se à espera de ser fecundado."- M. Hercília Agarez


"Depois de se ter estreado com um impressionante conjunto de poemas que iniciou o chamado «ciclo do Nordeste» («Algures a Nordeste», «Boleto em Constantim», «Douro: Pizzicato e Chula», «Arado» e «Cobra-d’Água»), A. M. Pires Cabral regressa ao tema de Trás-os-Montes, em tom elegíaco. A Terra Quente é agora uma terra envelhecida, despovoada, esquecida, cheia de silêncios e de escombros. Uma terra que chegou ao fim. Esta colectânea não desiste de uma nostalgia ainda «bucólica»: o rio Tua, as vinhas e furnas, a lavoura, a «guarda pretoriana» de gatos e cães, rãs e vacas, aves e pirilampos. A linguagem dos poemas é elevada ou demótica, sarcástica e quase metafísica, alegórica e zangada com as decisões de quem manda. Ou simplesmente assustada com a «temível, cerrada, intransitiva / noite dos homens». Porém, o tom disfórico não impede que o poeta se comova com procissões e magustos, resquícios de um tempo em que natureza e comunidade formavam uma união quase sagrada. Nos últimos anos, a discreta poesia de Pires Cabral alcançou um justo reconhecimento, por causa de alguns livros esplêndidos sobre a finitude. Chegou agora a vez do seu requiem transmontano."- Pedro Mexia

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