sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

No desfazer da Alma

Foto: josé alfredo almeida


"Andamos agora os cinco irmãos a desfazer a casa onde envelheceram e morreram os nossos pais e onde vivemos até os casamentos e as profissões nos dispersarem.
É uma casa antiga, do tempo em que as casas se viviam.Só se saía à rua por necessidade.Saía-se para ir às aulas, às compras; á estação apanhar o comboio ou despedir de alguém, fazer uma visita e, no verão trocar o calor da casa pelo calor do jardim estreito, onde um chafariz repetia uma água mole, à temperatura de toda à Régua.Também se saía, com uma certa circunspecção, para ir ao cinema e ao circo, quando os cartazes conseguiam tirar-nos do ramerrão doméstico.
É uma casa que teima em não perder a alma pelas telhas porque foi uma casa vivida.
(...)
Vivida, muito vivida por meu pai.Salvo as saídas a ver doentes por terras e quintas das redondezas, passava o tempo em casa. Enquanto houvesse doentes na sala de espera, não saía do consultório, a não ser para tomar um café e fumar um cigarro no terraço das traseiras. Se o frio e a chuva não consentissem, saboreava-os na sala de jantar, no cadeirão onde vi o seu fantasma, até aos desfazer da sala.
(...)
Quando desfizeram a biblioteca, vi meu pai perdido no vazio, a estender os braços como se quisesse agarrar o consultório.
Ilusão semelhante tive no desfazer do consultório.Aí meu pai era apenas uma imaculada bata branca rodeada pelos seus mestres da Faculdade, saídos das molduras para se despedir.
O desfazer da sala de espera foi mais dramático.Uma grande multidão de doentes pobres lutava por não perder aqueles bancos hospitaleiros, onde durante tantos anos esperaram remédio para os seus males.Foi tão nítida a visão do seu desespero, que os seus esgares me pareceram marcados na parede, como um friso de alucinações de Goya.
A descida do piano pela escada estreita foi difícil e patética. Não era um piano...Era uma urna negra, estranhamente brilhante, pegada por senhoras de idade em cujos rostos relampejavam ainda restos de juventude perdida. Quando o piano  saiu a porta, ficou maior o silêncio que já andava a doer por toda a casa."

 Camilo de Araújo Correia in "Crónicas do meu vagar"  

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