terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Leonardo, o Bombeiro



Leonardo era aprendiz de alfaiate no Peso da Régua.
Rapaz alegre, boa figura, cabelo anelado, pele escura, tocava harmónica e aparecia em todos os bailaricos da terra e aldeias próximas, cativando com a sua despreocupação natural e sã paciência para ouvir os outros nos seus desabafos e tristezas. Ninguém saía triste de ao pé dele. Tinha o dom de despertar no coração das pessoas um sentimento de afecto e de tolerância. Era um rapaz raro.
Filho de uns caseiros de uma quinta no alto do lugar das Caldeiras, subia e descia aquela encosta, ligeiro, as vezes que fossem necessárias ao dia. Saía de casa logo de manhã muito cedo, os galos ainda não cantavam, nem os porcos se agitavam na corte. Depois de tomar uma cevada quente aquecida num púcaro de barro, metia-se a caminho, para chegar a horas de abrir o atelier. Vinha almoçar a casa, e voltava sempre, em passo rápido, assobiando e distribuindo cumprimentos e atenções.
No Inverno, vestia uma samarra com gola de pele de raposa, calçava umas botas de carneira, e nunca se lamentava se chovia, ou nevava, ou fazia frio. Tudo eram razões para se alegrar e agradecer a Deus o estar vivo e tranquilo com tudo aquilo que a vida lhe oferecia.
Desde muito jovem que se alistara nos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua, que servia com grande dedicação e espírito de verdadeira solidariedade.
Eu lembro-me bem: nada era tão angustiante como ouvir a meio da noite, no silêncio e na escuridão da noite, a sirene dos bombeiros a tocar, um toque arrastado, insistente. Ouvia-se para além do vale, atrás dos montes, e só silenciava quando todos acorriam ao seu chamamento, e partiam para o combate que os esperava. Às vezes, viam-se as labaredas altíssimas, que pareciam que nunca poderiam vir a ser dominadas! Ardia um armazém à saída da Régua, junto à estação! Um fogo descontrolado, que o vento espalhava perigosamente. Os meios eram escassos, só a valentia dos homens igualava a força das chamas.
Leonardo, na sua casa no alto das Caldeiras, quando ouvia a sirene, vestia-se a correr, a correr passava pela capela a encomendar-se à Senhora das Dores, e corria quinta abaixo até à estrada, onde alguém quase sempre se oferecia para o levar até à Régua numa motorizada ou numa camioneta. Mas às vezes tinha mesmo de correr até ao quartel dos bombeiros!
Sempre lhe valeu a Senhora das Dores, e Leonardo serviu durante anos a corporação, com valentia e altruísmo, sem que nenhum desastre lhe acontecesse.
Um dia, na esperança de melhorar a vida, de conhecer outros horizontes, partiu para África. Essa esperança, que levou tanta gente a abandonar os pequenos deveres de um dia-a-dia de compensações tão pequenas que mal se percebiam...Por lá foi ficando, e a Régua cada vez mais se distanciava das suas memórias. Perdi-lhe o rasto.
Soube mais tarde, muitos anos depois, que morrera por lá, vítima de complicações resultantes de uma febre malária...
Mas ficaram os seus passos, o seu serviço, a sua entrega, registados no tempo da sua passagem pela terra onde nasceu.

Porto, 24 de Setembro de 2011
Mónica Baldaque

1 comentário:

  1. Excelente crónica de Mónica Baldaque, aliás como toas as outras; neste caso em particular, alusiva aos Bombeiros Voluntários de Peso da Régua, personificada em "Leonardo", o bombeiro que se entregou de alma e coração a tão nobre causa.

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