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| Dr. Antão de Carvalho |
Há pessoas cuja vida continua a existir para lá da sua existência.O Dr. Antão de Carvalho é uma delas, como escreveu o escritor Pina de Morais: “A Régua nunca avaliou o seu grande talento, embora o estremecesse carinhosamente.”
O Dr. Antão de Carvalho não morreu, se pensarmos que ficou a sua obra e,
sobretudo, o seu exemplo do cívico e da sua paixão pelo Douro,
sempre a pensar no bem colectivo. Como o mais carismático e eminente dos
paladinos do Douro fez parte de elite social, económica, cultural e política
que dirigiu um movimento de defesa dos lavradores do Douro: a disciplina da
produção, o aumento dos preços e o escoamento do vinho do Porto. Ele foi líder
principal de uma reforma institucional do sector vitivinícola duriense. Na sua casa,
no Largo dos Aviadores, nº 61 - que ainda existe em ruínas causadas por um fogo - redigiu as bases e depois o
contra-projecto que criou na Régua, em 1932, uma organização associativa para
representar interesses da lavoura, a Federação Sindical dos Vitinicultores do
Douro - Casa do Douro.
Era um lavrador do Douro, mas distinguiu-se como um advogado de prestígio na comarca da Régua. Foi ainda deputado e exerceu os cargos de Presidente da Câmara Municipal do Peso da Régua e de Ministro da Agricultura. Uns chamaram-lhe o “João das Regras” do Douro e para outros ele representava a “Voz do Douro”.
O escritor Pina de Morais, escritor nascido em Valdigem e seu contemporâneo, definiu-o como um “Jurista Romântico”. E escreveu uma brilhante crónica, depois da sua morte, a lamentar a sua perda irreparável para o Douro, onde sintetizou a razão do seu qualificativo: “Jurista romântico escrevi eu. Era de facto um jurista romântico, pois aliava a estrutura rígida da lei, o romantismo dos homens de 1820 e o seu sonho infinito que nimba as almas que se dão inteiramente ao torrão onde nasceram.”
Por sua vez, o escritor
João de Araújo Correia traçou-lhe o seu génio: “Pertencia a uma raça
hoje extinta à superfície da terra portuguesa. Era orador. Como advogado, tinha
desenvolvido o verbo congenial na prática forense. Fora da teia eleva-o à
sublimidade num comício em prol do Douro. Tão orador era, que não sabia
escrever. Só sabia ditar.” (..) Antão de Carvalho, homem de palavra tão fácil,
que subia com ela ao céu da fantasia numa tertúlia de gente positiva,
manteve-se no foro e na política sem o mínimo desvio. Foi ministro sem
deixar de ser jurisconsulto. Se se desgarrava, durante uma conversa, nunca se
desgarrou a inquirir testemunhas nem a rezar o credo democrático.”
O seu talento e a sua paixão pelo Douro mereceram do autor do romance Sangue Plebeu esta apreciação:“Teria uma biografia brilhante, excepcional, se tivesse ficado nos grandes meios ao serviço do seu país. Tanto melhor para o Douro, porque este não teve nunca, que eu saiba, quem puzesse tanto coração, quem se identificasse e vibrasse com as suas alegrias e sofresse com as suas dores…”
A paixão à Régua,
sua terra natal, e ao Douro foi o seu estado de alma permanente, deixando-a declarada expressamente no seu testamento notarial: “Coerente
com os princípios morais, sociais e políticos que dominaram a minha agitada
vida e pelos quais indefectivelmente lutei, afirmo, neste solene momento, a minha
concordância com a moral cristã na República e o meu anseio de que esta se
adapte ao imperativo do progresso, em marcha para uma mais perfeita e justa
organização social. No isolamento em que actualmente vivo, tenho sempre
presentes no espírito e no coração esta sagrada Região Duriense e a linda terra
da Régua, bem como acima de tudo a modesta aldeia em que nasci, dando por bem
empregados o trabalho e sacrifícios de toda a ordem que durante anos lhe
consagrei.
O meu funeral será feito à
vontade do meu testamenteiro, dos adiante nomeados, que aceitar desempenhar o
respectivo cargo. Desejo no entanto, que ele seja modesto e simples, espelho do
que fui em vida, sem convites ou sugestões e que o meu corpo vá repousar no
jazigo de família, ereto no cemitério de Poiares, deste concelho, junto de meus
pais e irmãos, como tal considerando o meu bom cunhado António, passando se
assim entenderem, na ridente aldeia de Vila Seca, onde nasci, estando ou não
depositado algum tempo na velha “Casa Amarela”, relíquia familiar, ou na
formosa capelinha de que minha irmã Zélia é desvelada protectora. Será
a ronda do morto sem descanso como na atormentada vida se viu.”
Não deixa de ter razão o
escritor reguense que, no artigo “Dois Paladinos”, lhe faz uma apologia
de defensor da região duriense: “O
Douro, sempre em crise latente, podia contar com os seus paladinos. Confiava
neles, secundando-os com os seus vivos e assinaturas. Hoje, se não tiver alguém
que o alumie, não sabe donde lhe vem o mal nem de que lado lhe virá o remédio”.
E acrescenta, com uma venerável admiração e respeito, que ia ao cemitério ouvi-lo sempre que havia uma crise no Douro e que este devia escutar os seus dois mais notáveis paladinos: "Sempre que o Douro sofre, com vinhos por vender ou à espera de pagamento, vou ao cemitério do Peso entrevistar Júlio Vasques. Subo ao cemitério de Poiares para conversar com o Dr. Antão de Carvalho. Fora de fantasia, é capaz de me apontar o bom caminho…”.
Na verdade, ainda hoje, os lavradores do Douro devem prestar atenção aos seu conselhos:" Povos do Douro: Alerta! Serenos, firmes e decididos, como sempre todos a postos"( Defesa do Douro, 1927).
José Alfredo Almeida
José Alfredo Almeida

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