domingo, 8 de dezembro de 2013

Os choferes do Largo dos Aviadores




"Há muito tempo que o condutor de automóvel de aluguer deixou de ser chamar chofer para se chamar taxista. Mas não mudou só a designação; mudou também a sua maneira de conviver com o cliente, o tempo da corrida.
(....)
A praça da Régua teve grandes choferes e grandes conversadores.Da poeira do tempo e do macadame, chegam-me, como se estivessem vivos, o Mota, O Manuel do Ford, o Zeca Neves, O Ginja, o irmãos Joaquim e Agostinho Soeiro, o Cantando, o Manocha...
Cada um com seu estilo, foram bons conversadores, o Manuel do Ford, o Joaquim Soeiro (o Se Quim, como lhe chama o Zamora, seu fidelíssimo factótum) e o Cantando, Américo de seu nome.
O Manuel do Ford era a serenidade em pessoa.Contava tudo com o mínimo de palavras, mas com grande precisão descritiva. O Joaquim Soeiro de entre todos os choferes do seu tempo era o contador mais distinguido. Descrevia como ninguém uma romaria, uma feira ou uma tourada. Ele foi, aliás, um garboso cavalheiro. Sabia dar tratamento às mais estranhas manias e doenças das muares. Ao falar de cavalos, parecia um ribatejano perdido no Douro.
Pela felicidade com que mudava do possível para o impossível, nunca falta assunto ao Cantando."

Camilo de Araújo Correia  in "Crónicas do Meu Vagar"

Sem comentários:

Enviar um comentário