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| Foto: josé alfredo almeida |
A minha montanha é a
que fica em frente do meu terraço. É a que vejo e me vê nas minhas
horas vagas. Quando não passeio, é defronte dela que gozo o tempo
disponível. Leio, escrevo e medito aqui, no meu terraço, quando o calor me não torra ou o frio me não inteiriça. O clima da minha terra é extremista.
Do meu terraço, avisto agora a minha montanha tapeçada de vinha,
salpicada de cal faiscante nas casas e toucada de matas a todo o correr
da cumiada. Filha do Marão, a minha montanha não tem nome no Gotha
montanhês. Sei que a ocupam três freguesias, mas não sei que nome lhe dá
o natural ignaro ou o turista culto. Eu chamo-lhe o monte Loureiro,
porque das três freguesias, Loureiro é a culminante. Godim fica-lhe aos
pés. Fontelas dá-lhe pela cinta. Loureiro é a cabeça da minha montanha.
(…) Não é porém ao panorama desfrutado do cima de Loureiro que me quero
referir. É à face da minha montanha voltada para mim como testemunha da
minha solidão durante o meu lazer. É a essa face, a esse ventre, a
esses flancos vistos e revistos a luzes várias como fachada fronteira à
prisão por preso observador; é a essa muralha verde, imposta à minha
vista para seu descanso, que hoje dedico meio dúzia de linhas.
À
parte cemitérios e caminhos, não há na minha montanha decímetro de terra
que não conte cepa. Em cada um destes corpos torcidos, passou a mão do
homem, plantando, podando, cavando e vindimando. Todavia, de tão
gloriosa tarefa, não há elogio senão o das folhas que vestem o corpo da
minha montanha. Esse rico pálio apregoa o labor de mãos calosas. Se não
fossem elas, a minha montanha andaria com a cútis negra à mostra.
Falemos porém do rico pálio sem nos importarmos agora de quem o tece e
de quem o tinge. Digamos que é um tecido cambiante de dia para dia e de
semana a semana. Do verde primaveril à púrpura outonal, a escala de
tons, a mutação de cores, é uma sinfonia de prelúdio tímido e fim
heróico. Morre embriagada de vermelho e oiro.
(…) A minha montanha,
vista do meu terraço, não é demasiado bela. É porém, em minhas horas de
pasmo, a mancha verde que me não sai dos olhos. Quero-lhe por isso ou a
abomino por isso. Exposta a nascente, com os primeiros raios, enche-se
de gumes, saliências de cristal. Na luz jorrante do dia, torna-se
indistinta, como se a ensaboasse uma babugem. Pelo entardecer é que é
linda… Suave, suave, suave como mulher cansada. À noite, morre, é uma
catacumba mal alumiada de espaçadas lâmpadas. Hora propícia para se
povoar de espectros. Hora em o Heitorzinho, o António Borges e o Dr.
Mesquita, almas sem pena, deambulam a espairecer.
João de Araújo Correia in "Três Meses de Inferno"

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