segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A minha montanha

Foto: josé alfredo almeida


A minha montanha é a que fica em frente do meu terraço. É a que vejo e me vê nas minhas horas vagas. Quando não passeio, é defronte dela que gozo o tempo disponível. Leio, escrevo e medito aqui, no meu terraço, quando o calor me não torra ou o frio me não inteiriça. O clima da minha terra é extremista.
Do meu terraço, avisto agora a minha montanha tapeçada de vinha, salpicada de cal faiscante nas casas e toucada de matas a todo o correr da cumiada. Filha do Marão, a minha montanha não tem nome no Gotha montanhês. Sei que a ocupam três freguesias, mas não sei que nome lhe dá o natural ignaro ou o turista culto. Eu chamo-lhe o monte Loureiro, porque das três freguesias, Loureiro é a culminante. Godim fica-lhe aos pés. Fontelas dá-lhe pela cinta. Loureiro é a cabeça da minha montanha
(…) Não é porém ao panorama desfrutado do cima de Loureiro que me quero referir. É à face da minha montanha voltada para mim como testemunha da minha solidão durante o meu lazer. É a essa face, a esse ventre, a esses flancos vistos e revistos a luzes várias como fachada fronteira à prisão por preso observador; é a essa muralha verde, imposta à minha vista para seu descanso, que hoje dedico meio dúzia de linhas.
À parte cemitérios e caminhos, não há na minha montanha decímetro de terra que não conte cepa. Em cada um destes corpos torcidos, passou a mão do homem, plantando, podando, cavando e vindimando. Todavia, de tão gloriosa tarefa, não há elogio senão o das folhas que vestem o corpo da minha montanha. Esse rico pálio apregoa o labor de mãos calosas. Se não fossem elas, a minha montanha andaria com a cútis negra à mostra. Falemos porém do rico pálio sem nos importarmos agora de quem o tece e de quem o tinge. Digamos que é um tecido cambiante de dia para dia e de semana a semana. Do verde primaveril à púrpura outonal, a escala de tons, a mutação de cores, é uma sinfonia de prelúdio tímido e fim heróico. Morre embriagada de vermelho e oiro. 
(…) A minha montanha, vista do meu terraço, não é demasiado bela. É porém, em minhas horas de pasmo, a mancha verde que me não sai dos olhos. Quero-lhe por isso ou a abomino por isso. Exposta a nascente, com os primeiros raios, enche-se de gumes, saliências de cristal. Na luz jorrante do dia, torna-se indistinta, como se a ensaboasse uma babugem. Pelo entardecer é que é linda… Suave, suave, suave como mulher cansada. À noite, morre, é uma catacumba mal alumiada de espaçadas lâmpadas. Hora propícia para se povoar de espectros. Hora em o Heitorzinho, o António Borges e o Dr. Mesquita, almas sem pena, deambulam a espairecer.

João de Araújo Correia in "Três Meses de Inferno" 

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