domingo, 2 de novembro de 2014

Geografia da Interioridade




Aqui e Agora Assumir o Nordeste
Antologia

Autor: A.M.Pires Cabral
Selecção e Organização de Isabel Alves e Hercília Agarez
Editora: Academia de Letras de Trás-os-Montes/ Âncora Editora-2011


"Quando do JL me chegou me chegou o desafio para escrever duas laudas autobiográficas, ocorreu-me um conhecido poema de Alberto Caeiro, em que o poeta proclama que há apenas duas datas na sua biografia: " a da minha nascença e da minha morte".
Que posso eu dizer mais do que Caeiro? Existe porventura alguma terceira, muito menos quarta, data digna de memória na minha biografia? Vistas as coisas honestamente, claro que não: é tudo de uma chateza saariana. De forma que, se quisesse ser rigoroso ( coisa que nem sem foi, e não será agora, chegado a uma idade em que burro algum toma andura, que vou passar a ser), escreveria apenas: Nasci a 13 de Agosto de 1941: segunda escrevam vocês, quando chegar o momento.
É certo que, como sucede com Alberto Caeiro, entre o meu nascimento e a minha morte todos os dias são meus. A maneira como os preenchi, ou algum deus ou diabo mos foi preenchendo, ou ainda como me foram espontaneamente preenchendo, tem pelo menos um aspecto estimável: foram preenchidos como poesia. Poesia - eis o recheio dos meus dias.
(...)
Podia continuar, digo eu. Mas o artigo está a ultrapassar a extensão imposta pelo JL. De forma que não enfado mais. Acrescentarei apenas que, contrariamente a Alberto Caeiro, não fui o único poeta da Natureza. Mas um dia destes - agora sim, exactamente como ele - dar-me-á o sono como a qualquer criança. Então fecho os olhos e durmo. Poderá então o JL escrever a segunda e última data da minha biografia."

A.  M. Pires Cabral

Ler João de Araújo Correia-50



                       João de Araújo Correia in "Cartas da Montanha"

sábado, 1 de novembro de 2014

Memórias Encantadas

Foto: josé alfredo almeida


"Em criança não nos despedimos dos lugares.

Pensamos que voltamos sempre.

Acreditamos que nunca é a última vez”. 


Mia Couto



Falar da Régua e do Rio Douro, é também falar de mim.
O que é um corpo sem alma?
A alma que me habita é feita de memória, muita dela líquida por causa do rio que se serpenteava à frente das janelas da minha casa no Corgo, para onde eu fui viver aos cinco anos de idade.
Fui viver para a Régua vinda de Lamego, para o "Largo da Ponte", com poucos meses de vida, onde permaneci até aos cinco anos. Levei comigo a visão dos ciganos que subiam a rampa em direcção ao Largo, das vendedeiras de castanhas, e a presença silenciosa do rio.
Foi no Corgo que me desenhei por dentro.
Absorvia tudo ao meu redor... 
As lavadeiras que passavam a caminho do rio, onde a cumplicidade, as cantigas, e possivelmente as angústias da vida eram compartilhadas.
A feira das quartas-feiras, o burburinho a azáfama das pessoas que desciam das aldeias e lugarejos. De burro, a pé, de camioneta para venderem os seus produtos.
As vindimas.
As rogas que me despertavam bem cedo.
Homens e mulheres a cantarem, ao som do acordeão.
Uma altura de um pouco de desafogo, para tantas famílias no limiar da pobreza.
E o rio.
Majestoso.
O rio, dos meninos que nos dias de Verão passavam felizes, de câmara-de-ar à volta do pescoço, que servia de bóia para nadar nas suas águas...
O rio, das manhãs de dor, em que os gritos das Mães, mulheres ou filhas, acordavam os ares, à espera de um corpo... Por vezes, de um milagre.
O rio, de cor parda que passava diante de mim levando, arrastando consigo árvores, animais, mobílias...
Das pessoas que não dormiam, e ficavam de guarda ao rio durante toda a noite.
Das casas que eram só telhado, o resto era água...
E o olhar das pessoas magoado.
A Régua.
Das procissões. 
Da Senhora do Socorro.
Das festas da Alameda...
Da cultura.
Do teatro na escola, das peças representadas, do incentivo às artes.
Da Biblioteca dos Bombeiros responsável pelo vício da leitura de várias gerações.
A Régua de tradições.
Da Pascoela, e da espera demorada do Sr. Padre, para beijarmos a cruz.
Dos cheiros.
Do arroz doce da aletria do leite-creme...
Do Vinho do Porto.
A Régua vista pelos meus olhos de criança.
Sei que a Cidade da Régua hoje está diferente, sei-o pela televisão, pelas pessoas amigas ou conhecidas.
Cresceu, modernizou-se.
Em alguns aspectos para melhor, noutros certamente que não.
Ganha-se e perde-se sempre que alguma coisa muda.

Há muitos anos que não vou à Régua.
Embora lá voltasse muitas vezes. 
Em sonho.
Acho que prefiro assim.
Intacta.
Um vale encantado.
Onde tudo permanece igual.
Até a minha velha e grande casa, continua lá, com o som da minha voz a ecoar pelas quintas e quintais. 
Com o som de todas as vozes, que eu amei.
E não uma estrada, a passar-lhe mesmo por cima do coração...

Ana de Melo

Ter esta Luz

Foto: josé alfredo almeida
   A Régua, 29 de Outubro...



Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -

se a luz é tanta,
como se pode morrer? 


Eugénio de Andrade

Boa manhã

Foto: josé alfredo almeida


  A Régua
  a olhar um barco
  que passa,
  e  árvore que espera o Outono
  e meu olhar
  a navegar no rio
  que me diz
  tudo se repete
  tudo se muda.
  É assim a vida.
  De repente,
  um novo dia começa.
  É assim...
  Todos os meus dias.

O meu Moledo-70

Foto:josé alfredo almeida

(Re)Conhecer a Régua-184



    A Régua, nos anos 60...
    Que saudades, lá está o campo de futebol do Douro Futebol Clube, onde joguei numa equipa de inciados.