sexta-feira, 17 de abril de 2015

Subir às nuvens

Foto: josé alfredo almeida




"os poetas de destino incerto 
só querem subir às nuvens"



Nuno Júdice

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Romântico por natureza

Foto: josé alfredo almeida



E feliz o poeta

Que ninguém lê.
Que sozinho contempla
O nascimento e a morte
Dos seus versos.


Miguel Torga

Fontelas

Foto: josé alfredo almeida

Oiro da noite
pó das estrelas
chuva de cinzas
à flor da pele
matéria negra
matéria fria
língua de fogo

rogai por nós

Domingos da Mota

Jesus Cristo

Foto: josé alfredo almeida



Sei que existes, e nisto se resume
o estar aqui, o persistir nessas tábuas inertes
que já não sei se é o palco da vida.
Sei que existes pessoa, de outro lado
de um lado que não sei;
sei
que existes, talvez carne, ignotos olhos,
manso rio de um silente vulcão
amargurado.

Pedro Tamen

Vila Real à janela

Foto: josé alfredo almeida



Era de inverno, em Vila Real. A neve
cobria as ruas que levavam ao liceu.
Dentro da confeitaria, as luvas de cabedal
no tampo do vidro, o vapor da respiração
ligava-nos entre as conversas de mesa indiferentes.
E querias olhar para mais dentro de mim.
Os pombos escondidos nos beirais tapavam
a cabeça na plumagem de chumbo, cor do céu.
Calados, afeitos ao silêncio, enlaçámos
em cada um dos nossos livros a primeira letra
dos nossos nomes, de modo a desenharem
uma única letra que não havia em alfabeto nenhum.
Que bem que estávamos tão mal ali sentados,
a faltar às aulas, nessa primeira vez
em que nos acontecia, sem sabermos, um amor.
Tu não ias adivinhar as leis secretas
que já nos separavam. Tu não podias
lutar na via de sangue da minha vida.
Mas sempre que tombar neve em Vila Real
e desceres a avenida a caminho do café
de alguma destas coisas, quem sabe, te hás-de lembrar.

Joaquim Manuel Magalhães

Pontes da Régua-96

Foto: josé alfredo almeida

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Divindade

Foto: josé alfredo almeida



Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

Eugénio de Andrade