quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O meu Moledo-25


Foto: josé alfredo almeida

Silêncios do rio


Foto: josé alfredo almeida

"Correm rios, rios eternos por baixo da janela do meu silêncio. Vejo a outra margem sempre e não sei porque não sonho estar lá, outro e feliz. Talvez porque só tu consolas, e só tu embalas e só tu carpes e oficias."

Fernando Pessoa

Rio turvo-2


Foto: josé alfredo almeida
                             
                                          Régua, hoje às 13.00 horas...

Rio turvo


Foto: josé alfredo almeida


Régua, hoje às 13.00 horas..

Ponte Natureza



Foto: josé alfredo almeida

Árvores em flor


Foto: josé alfredo almeida 



"Abençoado torrão, onde medram árvores deste porte! E novas! São como belas mulheres sadias, bem especadas nas suas colunas. Altas e fortes, não vibram a qualquer pé-de-vento. (...) São árvores honestas. Cheias de riso franco, lembram plácidas virgens saciadas de sol. Oh! Quem me dera a saúde destas árvores! 
Namoro-as da janela. Penso que a Régua seria feliz se possuísse e amasse mil árvores assim. À sua sombra viriam acolher-se as almas doloridas. Seria, na escaldada terra duriense, oásis procurado por caravanas sequiosas. 
Sem árvores, qualquer povoado é repulsivo. A Régua é linda. Em dias soalheios, vista de longe, do alto desses montes que a circundam, à beira da água, faiscante de jóias, é princesa. Mas... princesa calva! Princesa sem bosques onde corram gamos, sem espessuras onde gemam rolas, sem alfombras que sepultem o ruído dos passos, não é princesa real. É princesa do sabão e do petróleo. 
A Régua precisa duma grande mata. A presença de enormes manchas verdes dulcificar-lhe-ia a rudeza nativa, atrairia hóspedes espirituais. Sem árvores, é inóspita como um deserto. Os próprios naturais enriquecidos a abandonam... 
A Régua, por honra sua, deve perder o ar de coisa provisória. Deve enraizar-se como povoação definitiva. Plante árvores. A árvore é o símbolo do apego à terra. 
Debruçado no peitoril da janelinha, os olhos embebidos na beleza de meia dúzia de álamos e cedros, cismo... 
Retirando-me, gabo à dona da casa a regalia daquele postigo, onde, senhora viúva, a qualquer hora pode espairecer. 
- As árvores? Nem me fale nisso. Roubaram-me as vistas. Quando o Camilo Guedes foi administrador do concelho, ainda lhe pedi que as mandasse cortar. Nem sei que resposta ele me deu... Paciência." 

João de Araújo Correia,  in  "Sem método"  

Museu do Douro-19


Foto: josé alfredo almeida