domingo, 2 de março de 2014

Sinais


Foto: josé alfredo almeida


Imperfeito este mundo
E contudo
Recoberto de flores 

Issa Kobayashi

Quando for grande...





Na pessoa do senhor Presidente, quero começar por saudar todos os soldados da paz, que servem os interesses da nossa terra nesta prestimosa corporação, não esquecendo todos quantos, embora não sejam bombeiros, de uma forma ou de outra, contribuem para a sua grandeza, funcionalidade e prestígio.
Quando fui contactado para dar também a minha colaboração como médico dos bombeiros, perpassou-me pela mente todo um rosário de afazeres e compromissos ligados ao exercício da minha profissão, à minha vida familiar e à minha participação social. A conclusão foi de que pouco espaço ficaria vago para qualquer outra coisa que fosse. E, então, desenhou-se-me nos lábios um redondo, rotundo e definitivo NÃO!
O grande problema é que nós somos animais de memória. E o que parecia uma resposta fácil e imediata transformou-se num combate interior: de um lado, uma vida sem espaços vazios, do outro uma apelativa lembrança do meu tempo de menino e moço.
É que, como se estivesse a assistir à passagem de um filme, vi-me de calções e feridas no joelho, por detrás da vidraça da janela de casa dos meus pais, no Largo do Cruzeiro, perfeitamente rendido aos tambores que rufavam, às luvas brancas que traçavam arabescos no ar, aos capacetes que luziam, aos machados reluzentes, aos botões da farda com reflexos de ouro.
Como tantos meninos, do meu tempo ou do tempo do meu filho, sonhava entre prometendo e jurando: "QUANDO FOR GRANDE, QUERO SER BOMBEIRO!".
Então, e agora que tinha a oportunidade de realizar o sonho deixava que os lábios fossem mais fortes que o coração? …Então, e agora iria perder a oportunidade de ser Bombeiro, médico dos bombeiros, mas assim mesmo completa e inteiramente BOMBEIRO? …
Como que por magia, o redondo e rotundo NÃO dos Iábios transformou-se, num ápice, no mais redondo e mais rotundo SIM que o meu coração foi capaz de criar.
E aqui estou! De sorriso confiante e de peito escancarado para o que der e vier. E aqui estou não para fazer um favor a ninguém, antes para dar a oportunidade a mim mesmo de me realizar de uma forma mais completa, deixando-me envolver do espírito de serviço, de dedicação e amor, tal como qualquer outro bombeiro desta corporação.
Se eu quiser ir um pouco mais longe, rebuscando razões, para além daquela memória apelativa de criança, para estar aqui neste momento, descubro, sem dificuldade, muitas outras: 
ALEGRIA! É tão bom respirar este ar de entusiasmo, sentir o coração a pulsar; é tão bom descobrirmo-nos regozijados porque temos no nosso horizonte os outros e não apenas o nosso umbigo, por mais bonito que ele seja. E eu sei que vou encontrar, no contacto próximo convosco, essa alegria, esse entusiasmo.
HONRA! Quem será capaz de duvidar de que todas as pessoas que, neste salão, estão presentes se sentem honradas por saberem pertencer a uma instituição tão grandiosa na sua história de tantos anos e tantos feitos?
O mesmo sentimento pulsa dentro de mim: tenho a certeza de ir pertencer, de corpo inteiro, a uma corporação prestigiada e prestigiante, engrandecida por tanta e tanta gente que, hoje, nela vive e luta, ou que nela deixou o rasto do seu amor e da sua entrega. Possa eu ser merecedor dessa honra e desse prestígio ...
Sou médico. É nessa qualidade que me foi endereçado o convite para fazer parte da família numerosa e unida dos bombeiros. Vou ser (e permitam-me que o diga devagarinho, gozando o som melodioso das palavras) O PRIMEIRO MÉDICO DOS BOMBEIROS DO PESO DA RÉGUA! Se conseguirem imaginar, por pouco que seja, o orgulho que sinto pela vossa escolha, têm aí a razão deste meu sorriso.
Não esqueço, no entanto, a responsabilidade acrescida que sobre mim impende. A única garantia que posso deixar, sem hesitações, é a promessa do meu empenhamento, é a certeza do meu esforço, é a força do meu sentir. À nossa causa darei o que de melhor descobrir dentro de mim; comigo podem contar para os momentos bons, sabendo que, nos momentos menos bons, também gritarei “Presente!”.
Não quero maçar-vos com mais palavras. Vossas Ex.ªs. farão o favor de suprir alguma lacuna que tenha ficado de um discurso que eu pretendi, desde o início, simples e sincero. 
Ao olhar daqui para essas luvas imaculadamente brancas, para esses capacetes que reluzem, para esses machados, que prometem guerras de paz e para esses botões de ouro em farda de gala, não posso deixar de continuar a sonhar: mesmo que agora vista fato e gravata e não calções a mostrar os joelhos esfolados, como que prometendo jurando, digo de maneira sentida: QUANDO FOR GRANDE, QUERO SER BOMBEIRO!
OBRIGADO!

José Alberto Soares Marques
Presidente da AG da AHBV do Peso da Régua

Procuro-te


Foto: josé alfredo almeida

Como um sol de polpa escura 
para levar à boca, 
eis as mãos: 
procuram-te desde o chão, 

entre os veios do sono 

e da memória procuram-te: 
à vertigem do ar 
abrem as portas: 


vai entrar o vento ou o violento 

aroma de uma candeia, 
e subitamente a ferida 
recomeça a sangrar: 


é tempo de colher: a noite 

iluminou-se bago a bago: vais surgir 
para beber de um trago 
como um grito contra o muro. 


Sou eu, desde a aurora, 

eu — a terra — que te procuro. 

Eugénio de Andrade

sábado, 1 de março de 2014

Trova do vento

Foto: josé alfredo almeida


Tenho uma coisa para te entregar,
uma pedra a pôr no chão da rua,
uma lunar presença sob o sol.
Tenho uma coisa para te devolver,
para ficar minha sendo tua,
aquecida no tempo e nestes olhos.
Tenho uma coisa que eu te posso dar

que é o vento a vir atrás do verde
e a dizer azul no teu cabelo.

Pedro Tamen

Tarde chuvosa




Foto: josé alfredo almeida

Para que servem os dias?
Os dias são para vivermos neles.
Eles chegam, acordam-nos
Tempo após tempo.
Existem para neles ser feliz:
Onde podemos viver senão nos dias?

Philip Larkin

Imagens


Foto: josé alfredo almeida


Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem 
as imagens? 

Preciso habituar-me 
a substituir-te 
pelo vento, 
que está em toda a parte 
e cuja direcção 
é igualmente passageira 
e verídica. 

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos 
numa casa deserta, 
ao trémulo vigor de todos os teus gestos 
invisíveis, 
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve 
a não ser eu. 

Serei feliz sem as imagens. 
As imagens não dão 
felicidade a ninguém. 

Era mais difícil perder-te, 
e, no entanto, perdi-te. 

Era mais difícil inventar-te, 
e eu te inventei. 

Posso passar sem as imagens 
assim como posso 
passar sem ti. 

E hei-de ser feliz ainda que 
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho

Momentos de Glória




Quase de certeza que esta imagem retrata  um momento inicial de um jogo de futebol importante no Campo Artur Vasques Osório, já que a velha bancada central se encontra cheia de público para assistir a mais um encontro para o campeonato nacional (e provavelmente da 3ª Divisão) desta equipa do Sport Clube da Régua trajada do seu equipamento tradicional.
Neste "onze" de jovens futebolistas reguenses conseguimos reconhecer alguns rostos de pessoas nossas conhecidas, mas pouco mais sabemos dizer que memórias, lembranças e  até nostalgias esta imagem pode trazer a quem ainda gosta de ver um bom futebol naquele recinto desportivo -hoje um verdadeiro estádio completamente renovado - e aos fiéis adeptos que tem paixão quase cega pelo seu clube do seu coração.