terça-feira, 15 de agosto de 2017

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Festas do Socorro

Foto: Arquivo de josé alfredo almeida



 Este ano, 1966, foi ano de festas. Isto quer dizer que foi ano de barulho ensurdecedor. Belo fogo de artifício, boas bandas de música, procissão regular… Mas, o predomínio do altifalante sobre todos os números do programa? Fez fugir almas sensíveis, fez-lhes tapar os ouvidos.

Com o advento da sonorização mecânica, abusiva em mão de maus mecânicos, foram-se os tempos áureos das festas do Socorro. Nesses belos tempos, não havia zanguizarra que incomodasse, na execução de belos repertórios, famosas bandas de música. O arraial do rio, hoje deserto, porque o forasteiro, adepto do piqué, fica a ouvi-lo na alameda situada atrás da Câmara, foi, nesses tempos, um festival deslumbrante. Aquém e além-Douro, duas multidões irmanadas no prazer comum do Fogo e da Música… Rio abaixo e rio acima, barcos iluminados e embandeirados… A bordo, gente alegre, que misturava com as risadas corações de melancia, arroz de forno e anho assado. Hoje, à luz dos foguetes, o areal de além-Douro é um pequeno Sara. Do lado de cá, no antigo Passeio Alegre, hoje Avenida de João Franco, há farrapos de multidão aborrecida.
Fizeram falta às festas do Socorro as antigas touradas, cumpridas à portuguesa, sem estilizações que pudessem indignar os entendidos. E a parada agrícola? Todos os anos se realizava uma exposição de tudo quanto produz o solo duriense. Vinhos, frutas e flores… Porque deixou de haver parada agrícola? Era certame de valor real e espiritual. Juntavam-se aos renovos, como enfeite, rendas e bordados. Compareciam linhos e damascos. Ressuscitavam alfaias para luzir uma hora.
As festas do Socorro degeneraram. São hoje uma embriaguês de ruídos, devida ao culto do altifalante. Se o microfone, bem regulado, fosse privativo da autoridade para uma urgência, é provável que as festas do Socorro tornassem a ser harmoniosas.



João de Araújo Correia in Horas Mortas

Nas fotografias onde se vê a minha alma

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"Caro Dino,
No outro dia disseste que nas fotografias se vê a minha alma: e agora aqui as tens. Porque o único irmão da minha alma és tu e todas as coisas que me têm sido mais caras quero deixar-tas em herança, agora que a minha alma se encaminha por uma estrada onde é preciso que se embacie, se mascare, se ampute. Aqui encontrarás tantas coisas que já conheces: detrás de cada uma escrevi um título ou palavras com pouco sentido, que no entanto compreenderás. Conserva-as para recordação minha, para recordação do nosso encontro, que tem sido bom e belo e me deu tanta alegria no meio da dor. Caro, caro Dino, que tu ao menos possas moldar a tua vida como eu sonhava que fosse a minha: toda nutrida de dentro e sem escravidão. Em cada uma destas imagens vês repetido este desejo, esta certeza.
Abraço-te.

Antonia."


Antonia Pozzi in  Morte de Uma Estação

Eternamente Douro-119

Foto:josé alfredo almeida

Barco na paisagem-338

Foto:josé alfredo almeida

Pontes da Régua-1086

Foto:josé açfredo almeida